sábado, 1 de maio de 2021

ADOLPH VON WALLWITZ – Um conde alemão em Santa Maria

 

Adolph Esche Graf von Wallwitz nasceu em 15 de janeiro de 1848, em Dresden, filho do Conde Georg von Wallwitz e Maria von Kis-Serény.  (cfme CEGENS - Centro de Estudos Genealógicos do Vale do Rio Pardo)

Brasão dos Condes von Kis-Serény
desde 1656

Dresden era então a capital do Reino da Saxônia (em alemão Königreich Sachsen), existente de 1806 a 1918, membro independente das confederações pós-Guerras Napoleônicas. Com a unificação da Alemanha, em 1871, tornou-se parte do Império Alemão. Em 1918, após a Primeira Guerra Mundial e abdicação do Rei Friedrich August III, a Saxônia tornou-se um Estado Livre da República de Weimar, continuando Dresden como capital.

Situada às margens do Rio Elba, Dresden era chamada "a Florença do Elba" devido à harmonia de sua beleza natural com sua belíssima Arquitetura, intensa vida cultural e artística. Em 1945, nos últimos meses da 2ª Guerra Mundial, a cidade, que não tinha alvos militares, foi quase toda destruída por bombardeios dos aliados, causando uma chacina na população civil. Uma clara intenção de destruir uma das mais belas cidades alemãs.

 

Dresden - das Florenz an der Elbe

Santa Maria

Von Wallwitz emigrou para o Brasil e, em 1873, estava estabelecido em Santa Maria com uma escola na Praça da Constituição, que em 1889 passou a se denominar Praça da República.[1] Instalou a escola no salão da antiga bailanta do alemão Miguel Lau.

João Daudt Filho foi aluno no Colégio Wallwitz. Nascido em Santa Maria, em 1858, ele tinha 15 anos em 1873, quando von Wallwitz chegou à vila e abriu sua escola. Em suas Memórias,[2] Daudt Filho conta que o professor, com cerca de 25 anos, trajava com elegância, tinha "finas maneiras e um bonito rosto de pele rosada, marcado por um extenso gilvaz recente." Referia-se a uma cicatriz que supunha ser consequente de um duelo. Daudt prossegue, contando que alemães e descendentes matriculavam seus filhos no Colégio Wallwitz, mas que também muitos alunos de famílias brasileiras ali estudavam para aprenderem alemão. O colégio chegou a ter 132 alunos.

Durante as aulas, Adolph von Wallwitz fumava um enorme cachimbo, segundo o autor, de "quase um metro", sotando baforadas de fumaça em forma de círculo, o que os alunos depois procuravam imitar, sem sucesso. Além do currículo básico, o professor alemão ensinava desenho, ginástica e canto. Daudt lembra: "No fim das aulas, cantávamos alegres Lieder[3]  alemães, e assim os alunos iam se familiarizando com a língua."


Tipo de cachimbo
supostamente usado
por von Wallwitz
.

Em sua narrativa, João Daudt Filho acrescenta: 

Vestido de caçador, botas amarelas, culote [4] de veludo verde, jaquetão cingido por largo cinturão com fivela de prata, chapéu enfeitado com plumas, trompa a tiracolo, espingarda às costas, com a Diana, perdigueira de raça ao lado, rumava em direção aos campos, à cata de perdigões.

 Naquela época, os caçadores não precisavam se afastar muito da pequena vila santa-mariense. Bastava uma caminhada para além dos limites urbanos a sudoeste, então um pouco adiante de onde hoje fica a Rua Visc. de Pelotas, para chegar às pradarias onde havia muitas perdizes e perdigões.

Adolfo de Walhail ? - A Comunidade Evangélica Alemã (die Deutsche Evangelische Gemeinde)

O registro de sua história, desde a fundação, em 1866, até a década de 1940, tornou-se uma tarefa difícil devido à destruição das fontes primárias. Todos os assentamentos, arquivos, biblioteca e demais pertences da Igreja Luterana local foram destruídos e queimados, durante os ataques sofridos em 19 de agosto de 1942, instigados pelos movimentos antigermânicos, na época da Segunda Grande Guerra. Na criminosa destruição, foram reduzidos a cinzas, 76 anos de história da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria e também da cidade, pois muitos de seus membros eram pessoas proeminentes na sociedade local. Entretanto, muitos registros de nascimentos e casamentos foram recuperados graças ao registro civil que fora criado para os acatólicos, em 1863.

Registro Civil

Muitas décadas antes da República, D. Pedro II decretou a regulamentação do registro civil, em 17.4.1863, para regularizar a condição social dos acatólicos, isto é, dos imigrantes alemães evangélicos e de seus descendentes. O catolicismo era a religião do Estado e somente seus registros eram reconhecidos. O Decreto do Imperador regulava o “registro dos casamentos, nascimentos e óbitos das pessoas que professavam religião diferente da do Estado”. O 1º capítulo tratava “dos casamentos de pessoas não católicas a quem eram extensivos os efeitos civis dos casamentos católicos.”

Estabelecia as condições para que “pastores das religiões toleradas” pudessem praticar atos de seu ministério religioso, “suscetíveis de produzir efeitos civis.” Para isso, as atas de eleição ou nomeação dos pastores deviam ser registradas na Secretaria do Governo da Província, em Porto Alegre, mediante sua transcrição em livro específico. Atendida essa exigência legal, os casamentos, nascimentos e óbitos de acatólicos, se os interessados desejassem, podiam ser registrados em três livros, com a transcrição de certidão emitida pelo Pastor: Casamentos a cargo do Secretário da Câmara Municipal. Nascimentos e óbitos, a cargo do Escrivão do Juizado de Paz.

Em minhas pesquisas no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, encontrei o valioso documento

SECRETARIA DO GOVERNO DA PROVINCIA

LIVRO DE REGISTROS DE PASTORES DAS RELIGIÕES TOLERADAS

Na fl. 14 verso, a transcrição da ata de “Eleição de Erdmann Wolfram para Pastor Protestante da Communidade Evangelica da Villa de Santa Maria da Boca do Monte” tem o seguinte encerramento:

Santa  Maria  3  de Junho de 1873   —  Em nome da mesa: o Secretario Adolfo de Walhail – O Presidente Otto Brinckmann  –  Os mesarios Henrique Druck,  Carlos Müller,  Pedro  Brenner,  Nicolaus Ehlers, Abraham Kassel, Jacob Winck.

Os membros mais instruídos da Comunidade eram escolhidos para secretários da diretoria. Essa circunstância e a presença de von Wallwitz em Santa Maria indicam que o secretário de 1873, der Schriftführer, deveria ser Adolph von Wallwitz e não um inverossímil Adolfo de Walhail. Os sobrenomes Walheil ou Wahlheil existem, mas não os encontrei em minhas pesquisas sobre imigração alemã na região de Santa Maria.

A ata transcrita no citado livro foi assinada pelo secretário, certamente na antiga grafia alemã – die alte deutsche Schrift. Von Wallwitz poderia ter adotado o aportuguesamento de seu nome, inclusive a troca da preposição alemã “von” pela portuguesa “de”.

Apresento abaixo o nome Wallwitz escrito em duas formas, na antiga grafia cursiva alemã.

O 2º Oficial da Secretaria do Governo da Província, Antonio José Lavra Pinto, encarregado da transcrição no citado livro, desconhecedor da paleografia alemã, fez uma errada leitura da assinatura de von Wallwitz. A sequência de letras “lwit” poderiam facilmente ser lidas como “hail”. O problema é o “z” final, a menos que fosse interpretado como um traçado finalizador da assinatura de von Wallwitz

Placa Memorial

Em Os primórdios da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria (IHG-S.Maria, 1999), comprovei de forma circunstanciada e documentada que uma placa de bronze, afixada no adro do templo, desde 1973, continha erros, entre eles – o mais grave – a troca do nome de um dos dirigentes fundadores, Philipp Schirmer, por um inexistente Philipp Ilmann. Em consequência, fui convidado, em 2001, a uma reunião da diretoria da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Santa Maria, quando sugeri que a placa fosse substituída. Integrei então uma comissão também composta pelo Pastor e alguns membros da Comunidade que aprovou meu projeto de duas placas, uma em memória da fundação da Comunidade, em 1866, e outra em memória da construção do templo, em 1873. Para o conteúdo dessa última, apresentei à comissão os indicativos de que o secretário deveria ser Adolph von Wallwitz, o que foi aprovado.

As placas de bronze, medindo 43 x 70 cm cada uma, afixadas nos pilares internos que sustentam a torre da igreja, foram inauguradas em 5 de abril de 2009, domingo, após o culto memorial dos 143 anos da fundação da Deutsche Evangelische Gemeinde – a Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria

Maçonaria

No ano seguinte à sua chegada a Santa Maria, Adolph von Wallwitz participou da fundação da Loja Maçônica Boca do Monte, em 29.11.1874. Eram 54 fundadores, 25 dos quais alemães e descendentes, alguns já iniciados nessa confraria, em outros locais. Vinte anos depois, o nome, que era apenas uma referência geográfica, foi trocado para Loja Maçônica Paz e Trabalho, portando um conteúdo programático, denominação que mantém até hoje

Santa Cruz

Em 1878, Adolph von Wallwitz habilitou-se como agrimensor e mudou-se para Santa Cruz. Em 6 de fevereiro de 1884, casou-se em Faxinal, Santa Cruz, com Mercedes Ottilie Textor, nascida em 2 de junho de 1863, na Costa da Serra, filha de Carl Textor e Seferina de Oliveira. Costa da Serra é a denominação antiga da região de Trombudo, hoje Vale do Sol, Candelária, Cerro  Branco e arredores.

Von Wallwitz faleceu com apenas 39 anos, em 4 de setembro de 1887, em Faxinal, Santa Cruz, supostamente o atual Bairro Faxinal Velho, a 3 km ao sul da Praça Getúlio Vargas, no centro.



[1] Em 1963, foi rebatizada para Praça Ten. João Pedro Menna Barreto. É popularmente conhecida como. “Praça dos Bombeiros”. Talvez o único caso, no país, em que a denominação de um logradouro que evocava importante evento da história foi trocado pelo nome de uma pessoa.

[2] Memórias/João Daudt Filho – 4ª ed., S. Maria Ed. UFSM, 2003.

[3] Lieder, plural de Lied, significa canção, um tipo peculiar de canção característico da cultura germânica.  

[4] Culote - Calça larga na parte superior e justa a partir do joelho, usada por militares e para montaria, em geral com botas de cano alto ou com perneiras.

quinta-feira, 18 de março de 2021

CAPITÃO OTTO BRINCKMANN — local e datas

    Carl Ferdinand Otto Brinckmann veio ao Brasil, em 1851, como capitão de Artilharia da chamada Legião Alemã, contratada pelo Governo Imperial do Brasil para a Guerra contra Oribe e Rosas. Um Brummer, como eram chamados aqueles militares.

Imagem obtida a partir de foto publicada na Revista Commemorativa do Centenário de Santa Maria, 1914.

      Após o conflito, com 30 anos de idade, ele estabeleceu-se em Santa Maria, em 1855, onde passou a atuar como agrimensor, praticando seus conhecimentos de topografia, ciência usada em Artilharia, na técnica de tiro. Foi o agrimensor da Intendência Municipal até se aposentar, em 1898.

    O Capitão Otto Brinckmann, como sempre foi chamado, construiu sua casa na Rua do Comércio, onde hoje está o Edifício Block, nº 1058, na Segunda Quadra da Rua Doutor Bozano. No final do século XIX, funcionava em parte da casa, ou no prédio ao lado, nº 66, a redação e oficina tipográfica de O Combatente, jornal de Candido Brinckmann, filho de Otto. Os últimos moradores do casarão foram os membros da família do Dr. Lamartine Souza, neto de Otto. O Dr. Lamartine tinha ali sua residência e seu consultório médico. O terreno se estendia até a Rua Venâncio Aires, onde havia um portão para entrada de carro.

Ao centro, com 11 aberturas, a casa de Otto Brinckmann, na 2ª Quadra da Rua Dr. Bozano. Foto de Bortolo Achutti, 1940.
     Otto Brinckmann exerceu forte liderança na etnia alemã santa-mariense. Foi presidente da Deutsche Evangelische Gemeinde – a Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria, em 1873, quando foi construído o templo. Certamente estava entre os fundadores da Comunidade, em 8.4.1866.

    Em 28 de outubro de 1866, o Cap. Otto Brinckmann reuniu em sua residência 18 alemães e descendentes para fundarem o Deutscher Hilfsverein de Santa Maria, sendo seu primeiro presidente. De início uma sociedade beneficente, passou por mudanças nas denominações e nos objetivos, tornando-se a atual Sociedade Concórdia Caça e Pesca-Socepe, que em outubro vindouro completará 155 anos de fundação.

     Datas

    Em 22.5.2016, fiz uma postagem, neste blog, sobre esse insigne personagem, comentando que ele
nascera “em 21.5.1826, em local não identificado da atual Alemanha”. A citada data do nascimento é a que consta na lápide de seu túmulo, no Cemitério Municipal de Santa Maria.

    Entretanto, o necrológio publicado quatro dias após seu falecimento, em O Combatente, edição de 8.1.1903, 1ª p., registra que Otto falecera “contando 78 anos e meio de idade”, o que remete a data do nascimento para meados de 1824. Isso é condizente com as informações do site genealógico Geni, que registra a data do nascimento em 21.5.1824. O teor do necrológio é confiável, pois o proprietário e diretor de O Combatente era Candido Brinckmann, filho mais velho de Otto.

Acervo Casa de Memória Edmundo Cardoso.
    No site genealógico Geni consta que Carl Ferdinand Otto Brinckmann nasceu em 21.5.1824 – mesmo dia e mesmo mês citados na lápide, com dois anos de diferença. Geni (www.geni.com) é um site norte-americano de genealogia, com sede em Los Angeles, de propriedade da empresa privada israelense MyHeritage.

    O site também informa que Otto faleceu no Brasil, era filho de Johann August Brinckmann e de Dorina Brinckmann, e teve um filho chamado August.


    No Registro Civil de Óbitos (2, 162, 3 - 1ª – 1903), consta que ele era natural da Alemanha, faleceu em 04.01.1903 em Santa Maria, RS, com 78 anos, filho de Augusto Brinckmann e Margarida Brinckmann.

    Otto Brinckmann casou com Maria Basilia Garcia da Rosa com quem teve, pelo menos, cinco filhos, um deles chamado Augusto:

    Candido, 1869; Adolpho Otto, 1872; Vicentina, 1874; Octilia, 1876 ; Porfiria (Fifi), 1878; Augusto, ~1886;. A menina Octilia morreu com um ano de idade.

    O nome do pai é confirmado, mas há divergência quanto à mãe: no registro, Margarida e no site, Dorina, um prenome bem raro na Alemanha.

    Local - Magdeburg

    No citado site consta que o Cap. Brinckmann nasceu em Magdeburg, atualmente capital do Estado Federal de Saxônia-Anhalt, na Alemanha. Citada em documentos desde o ano de 805, Magdeburg é uma das mais antigas cidades da Alemanha, Otto I, o Grande, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, tornou Magdeburg, em 950, um Arcebispado e uma das mais importantes cidades e sei império. Por isso Magdeburg é camada Die Ottostadt -  "A Cidade de Otto", uma possível influência na escolha de um dos prenomes de Brinckmann, pelo qual ele ficou conhecido. Na época de seu nascimento, sua cidade natal pertencia ao Reino da Prússia. Em 1815, após o fim das Guerras Napoleônicas, o território do Ducado de Magdeburg foi um dos que formaram a nova Província Prussiana da Saxônia, cuja capital era a cidade de Magdeburg.

A região histórica da Província da Saxônia hoje compreende a maior parte do atual estado federal alemão da Saxônia-Anhalt. . 

Fontes:
Arquivo pessoal
Pesq. no Reg. Civil S. Maria por João Alberto Licht Teixeira
O Combatente - Casa de Memória Edmundo Cardoso
Cemitéro Mun. de S. Maria
http´s://geni.com
wikipedia.org-Saxônia-Anhalt


 

 

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O casamento de Franz Karl Brenner - Há 157 anos


   Franz Karl Brenner, meu bisavô materno, nasceu em 17 de setembro de 1831, em Ellweiler, uma aldeia no Principado de Birkenfeld/Hunsrück. Tinha 14 anos quando emigrou para o Brasil, junto com seu irmão Johann Jakob e suas irmãs Anna Philippina, e Catharina, casada com Jakob Cullmann.
   Franz Karl já adotara somente o prenome Karl, em sua terra natal, conforme assinou na Bíblia que recebera no ato de sua confirmação, em 1845. 

   Ele ficou pouco mais de dois anos em São Leopoldo, junto à família da irmã Catharina. Em 1849, aos 18 anos, já residia em Porto Alegre, como aprendiz de um alfaiate, na Rua da Praia. Nove anos depois, em 1858, mudou-se para Santa Maria.
Franz Karl Brenner
   Karl Brenner tinha 27 anos, quando chegou à vila santa-mariense, então com 2.900 habitantes, na área urbana, recém-emancipada de Cachoeira. Estabeleceu-se como alfaiate, profissão importante na época, que lhe garantiu prosperidade em alguns anos de trabalho. Passou a ser chamado Carlos Brenner. Segundo Astrogildo de Azevedo,[1] ele “era estimado de todos, exerceu por muitos anos a profissão de alfaiate, que lhe proporcionou velhice abastada”.
   Tornou-se amigo do alemão Peter Cassel, seu colega de profissão, 24 anos mais velho. Cassel era um dos principais líderes dos alemães evangélicos locais, que então se organizavam para fundar sua comunidade. Ele era padrinho de batismo de Christiana Hoffmeister, nascida na vila, filha do ferreiro alemão Mathias Hoffmeister, depois conhecido como Matheus. A ferraria ficava na Rua Pacífica, atual 2ª Quadra da Dr. Bozano, mais ou menos onde hoje está a Casa Eny.

    Casamento, em 10 de setembro de 1861
   Assim, Carlos Brenner conheceu Christiana e, três anos após sua chegada a Santa Maria, faltando uma semana para completar 30 anos, ela casou com a jovem, então uma adolescente de 17 anos.
1ª Igreja catélica de S. Maria.
Des. de autor desconhecido
   A Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria somente foi fundada em 1866, por isso Christiana, de família luterana, fora batizada católica. Assim, na falta da igreja dos noivos, o casamento foi celebrado, em 10 de setembro de 1861, uma terça-feira, na primitiva e singela igreja católica de Santa Maria, situada no local correspondente hoje à extremidade sul do canteiro central da Avenida Rio Branco, onde está o monumento ao Cel. Niederauer. 
   Ficava de frente para um terreiro cheio de barrancos de terra vermelha, cobertos de macegas, chamado, na época, de Praça da da Matriz e, desde 1883, Praça Saldanha Marinho.[1] A pequena igreja foi demolida em 1888, porque suas paredes ameaçavam ruir.
Livro de nºs 2 e 3 de Casamenotos - Igreja Matriz de Santa Maria

   Peter Cassel, que já fora padrinho de batismo de Christiana, foi testemunha do casamento, assim como, mais tarde, foi padrinho de batismo de Júlio, quarto filho do casal. Também foi testemunha João Daudt, nascido em S. Leopoldo, filho do genearca Johannes Daudt, imigrado em 1826.
   Vê-se que o Vigário Antonio Gomes Coelho do Valle admitiu a declaração do noivo de que ele era “natural e baptizado n’Alemanha”, sem questionar a religião.
  Carlos Brenner era membro contribuinte da Deutsche Evangelische Gemeinde, a Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria. Em 6.8.1882, ele assinou a ata da assembleia que elegeu Friedrich Pechmann para pastor,[1] que também foi assinada por Matheus Hoffmeister, Supostamente, Carlos Brenner e seu sogro foram fundadores da Comunidade.
Capela do Divino - Santa Maria
   A história oral familiar conta que, aos domingos, o casal saía da residência, na Rua do Comércio (atual Dr. Bozano), e se separava: Carlos descia a rua e ia ao culto dominical na Igreja Evangélica Alemã, inaugurada em 1873; e Christiana subia a mesma rua para assistir a missa na primitiva Igreja Matriz, até 1888, e depois na Capela do Divino, na esquina sudoeste da Av. Rio Branco com Rua dos Andradas, que serviu de Matriz por 21 anos, até a conclusão da nova igreja, a atual Catedral, em 1909.  
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[1]Conforme Livro de Registro da Eleição de Pastores do Culto Protestante, folha 29 verso,  na Secretaria do Governo da Provincia, em Porto Alegre. - Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. 


[1]Conforme Livro de Registro da Eleição de Pastores do Culto Protestante, folha 29 verso,  na Secretaria do Governo da Provincia, em Porto Alegre. - Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.



[1] Somente em 1904, praça recebeu uma calçada no perímetro, e foi inaugurada , com seu 1º tratamento paisagístico, em 15.11.1906.


[1] AZEVEDO, Astrogildo de. Os Allemães em Santa Maria, In: Revista Commemorativa do Centenario de Santa Maria, 1914,

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Crônica da chuva - há 85 anos

 As quadras e o pequeno pavilhão social do Avenida Tênis Clube, eram importantes espaços para convívio social e esportivo de jovens santa-marienses, nas primeiras décadas do século XX. O clube estava então instalado na Praça da República, na área hoje ocupada pelo Corpo de Bombeiros.
Nos anos 30, as alegres tardes de jogos e as reuniões dançantes cumpriam a finalidade que fora desejada pelas fundadoras, em 1917.
Uma crônica publicada no Diario do Interior, em 2.9.1933, sábado, assinada com o pseudônimo de “Nicia”, revela sentimentos de frustração e desalento durante quatro dias de chuva. Assim como hoje, neste domingo de 2.9.2018, exatamente 85 anos depois.
Nicia lamenta não poder usar sua nova raquete e cita o tênis como o “esporte de Borotra”. Referia-se a Jean Robert Borotra, o tenista francês campeão de Wimbledon, em 1924 e 1926, do Open da Austrália, em 1928, e de Roland Garros, em 1931.

A seguir, culpa São Pedro e revela-se jovem, comparando a velhice do guardião das portas dos céus e das chuvas com sua juventude. Declara-se saudosa das alegres tardes de jogos, nas quadras do Avenida Tênis Clube.

Termina sua crônica comunicando que, com a releitura de O Tênis, de Décio Ferraz Alvim, estaria pronta para desafiar as jovens tenistas do A.T.C.:
Clelia Nieves, que Nicia descreveu em crônica posterior:
... pele morena, cabelos negros e crespos, olhos da mesma cor, melancólicos; faz recordar as belas andaluzas.
Boca pequena e lábios róseos, sempre prontos a mostrar uma fileira de lindas pérolas.
Uma covinha, bela e original covinha, que só aparece quando ela sorri aquele sorriso moço e são de suas encantadoras primaveras. E como faz bem a nós, já velhos, aquela mocidade alegre e desenvolta.
Amelinha Pereira, que seria coroada a 2 ª Rainha do A.T.C., no ano seguinte, em 28.7.1934.
Clelia Nieves, Amelinha Pereira e Elisa Pereira

Norma Seibel
Herta Puhlmann, tenista e pianista, que escrevera a partitura do Hino do A.T.C., composto, meses antes, por seu irmão Horst Puhlmann.
Elisa Pereira, muito ativa nos jogos e na diretoria, foi bem votada para a 1ª rainha do clube.
Nicia conclui citando a “excelsa e querida Rainha”, Norma Seibel, a 1ª Rainha do A.T.C., eleita por votação dos associados e coroada em 4 de julho daquele ano.

Mas quem era Nicia? Naquela época, eram frequentes as crônicas referentes ao tênis, no Diario do Interior. Eram assinadas por cronistas sob diversos pseudônimos: Smash, Drive, Marrecão, Fundo, Rod, Joel, Nicia, Pythoniza, Sinhasinha. Não identifiquei Nicia, mas suspeito que era um pseudônimo partilhado por um homem e uma mulher.

Nas citações acima, Nicia ora se diz "ansiosa", esperando o sol, e “socada aqui, neste ermo” e anuncia que desafiará as tenistas, chamando-as “campeãs”; ora proclama, referindo-se à mocidade alegre e desenvolta de Clelia, “como faz bem a nós, já velhos”.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Ildefonso Brenner – 13 de junho de 1862


Hoje, 13 de junho de 2018, aos 156 anos do nascimento de Ildefonso Brenner, meu avô materno, lembro que ele nasceu em Santa Maria filho primogênito do imigrante alemão Franz Karl Brenner e da santa-mariense Christiana Hoffmeister Brenner.
O pai se fixara na cidade em 1859 com alfaiataria e casa comercial. Em sua Confirmação, em Ellweiler/Hunsrück, em 20.11.1845, Franz Karl recebera sua Bíblia, como era costume na confissão luterana. Na primeira folha em branco, ele registrou o nascimento dos filhos.
 No primeiro registro, ele escreveu:
    Ildefons Antonio Brenner
   Geboren den 13 Junio 1862
Possivelmente uma escolha compartilhada: O pai escolheu Ildefons, nome de origem teutônica que significa “pronto para o combate”. E a mãe quis chamar o filho de Antonio, pois ele nascera no dia desse santo. Embora de família luterana, ela estava ligada ao catolicismo, desde o nascimento, pois a Igreja Evangélica Alemã só foi fundada em Santa Maria, em 1866. Os registros e a legitimação das famílias só poderiam ser na igreja católica.

O batismo católico foi realizado dois anos depois, em 24.9.1864, somente com o nome Ildefonso. 
 O distraído celebrante, Vigário Antonio Gomes Coelho do Valle, registrou “o innocente Ildefonso, nascido a treze de Junho deste anno”, ou seja, 1864. 

Ildefonso Brenner completou sua formação em Dresden, Alemanha, de 1881 a 1885, na Europäische Moden-Akademie. 
Comerciante
Voltando a Santa Maria, fundou, com seu irmão Germano, a empresa Brenner & Irmão, no térreo do sobrado da família, na esquina noroeste das atuais ruas Dr. Bozano e Serafim Vallandro. Em 1902, associou outros irmãos seus, sob a razão social de Ildefonso Brenner & Cia.

Atividade social
Em 29.9.1887, Ildefonso Brenner foi um dos 31 fundadores do Clube Atiradores Santamariense, com sede provisória na chácara do presidente Carl Müller, onde tinha seu estande de tiro, na atual Rua Barão do Triunfo, ao norte da Silva Jardim.
Em 1888, com 25 anos, foi eleito presidente do Clube Caixeiral Satamariense, sendo reconduzido ao mesmo cargo, em 1901.
Theatro Treze de Maio - Santa Maria
Sua formação cultural o levou a participar com João Daudt Filho da fundação da Sociedade Theatral Treze de Maio, em 1889, e foi um dos atores amadores do grupo formado por Daudt, nos primórdios do Theatro Treze de Maio.
Política
Em 3 de dezembro de 1891, realizou-se a instalação do 1º Conselho Municipal, tendo por presidente Frederico Kessler, e por secretário Ildefonso Brenner, 29 anos.
Durou pouco esse Conselho, pois, no dia seguinte, o Governador Júlio de Castilhos foi deposto, por ter-se recusado a apoiar o golpe praticado por Deodoro da Fonseca, quando dissolveu o Congresso Nacional. Foi nomeada uma junta para governar o Estado, pejorativamente chamada de "governicho". Em Santa Maria, o intendente e todos os membros do 1º Conselho Municipal renunciaram, em 23 de dezembro.

Ildefonso Brenner, com seus irmãos Germano, Júlio e Percival, e com seu cunhado Júlio Laydner,  participaram do grupo de 30 homens da sociedade santa-mariense que expulsaram o Padre Carlos Becker, que deixou a cidade em 18 de novembro de 1895, após 48 horas de ter sido intimado a retirar-se. Sucedendo o Padre Catalano, apreciado por todos, o Padre Becker assumira a paróquia com arrogância ultramontana.
Hospital de Caridade
Em 1898, foi cofundador, como secretário, da Sociedade de Caridade Santamariense, com a finalidade “criar e manter um hospital, onde serão recolhidos e tratados gratuitamente os doentes pobres.”  Essa instituição foi transformada, em 1901, em Associação Protetora do Hospital de Caridade, ainda sob a presidência do Dr. Astrogildo de Azevedo, tendo ainda Ildefonso Brenner como secretário. O hospital foi inaugurado em 1903.
Casamento
Em 7 de maio de 1902, chegando aos 40 anos, Ildefonso casou com Lydia Laydner, 12 anos mais jovem, filha caçula do ourives alemão Jakob Ludwig Laydner e Maria Luiza Niederauer. 
Ildefonso Brenner e Lydia Laydner Brenner
O casal passou a residir na casa onde Lydia nascera, em 10.10.1874, na Rua do Comércio, atual Dr. Bozano nº 1065, onde fora realizado o casamento civil. Em 1929, ano anterior ao casamento de suá única filha, Maria Luíza Brenner, Ildefonso mandou reformar sua casa, dando-lhe nova linguagem arquitetônica.
A fachada manteve seus elementos de 1929 a 1969.

Atividade classista
Exercia liderança entre os comerciantes locais, tendo sido presidente da entidade de classe em duas épocas. Em 1914, quando tinha a denominação primitiva de Praça do Comércio de Santa Maria, e em 1924, quando já passara a se chamar Associação Comercial de Santa Maria.
No ano seguinte, aos 63 anos, possivelmente, retirou-se dos negócios.

Ildefonso Brenner faleceu em sua casa, no dia 10 de abril de 1951, com a avançada idade, faltando dois meses para completar 89 anos.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Maria Luiza Niederauer Laydner - 186 anos

Esta postagem é feita em memória de Maria Luiza Niederauer Laydner, minha bisavó materna, cujo nascimento ocorreu há 186 anos, neste dia 14 de novembro.
Maria Luiza Niederauer Laydner
Seus pais, Philipp Leonhard Niederauer e Anna Catharina Diehl, naturais do Rheinhessen, chegaram à Colônia Alemã de São Leopoldo, em 15 de janeiro de 1826. Do Rio de Janeiro a Porto Alegre, foram transportados pelo bergantim Carolina, um veleiro de dois mastros, “marcado pela fome e pela morte”.

Três Forquilhas
O casal estava entre os pioneiros da Colônia Alemã de Três Forquilhas, em setembro de 1826. Lá nasceram os filhos Johannes, em 4.4.1827, que se tornaria o heroico Coronel João Niederauier Sobrinho, e Elisabertha, em 24.6.1829.
A Colônia Alemã de Três Forquilhas teve grande e rápido desenvolvimento. A terra era fértil, o clima excelente e os colonos laboriosos. Philipp Leonhard Niederauer, agricultor e com casa comercial no Núcleo da Igreja, tornou-se um dos mais abastados da colônia. Porém, distante de cidades e sem meios de transporte, não havia escoamento para os produtos coloniais.
Após quatro anos de frustrações, 17 famílias alemãs deixaram Três Forquilhas, entre elas os Niederauer.

Dois Irmãos
Em 1831, os Niederauer estavam estabelecidos em Sankt Michael der beiden Brüder , ou seja, São Miguel dos Dois Irmãos, colônia que deu origem à atual cidade de Dois Irmãos,160 km ao sudoeste de Três Forquilhas. A colonização de Dois Irmãos foi iniciada em fins de 1825 e começo 1826; era conhecida como Baumschneise, que significa Picada dos Baum, nome de uma das primeiras famílias colonizadoras.
Dois Irmãos fica 20 km ao norte de Novo Hambrugo

Em Dois Irmãos nasceu Louisa, a terceira filha, em 14 de novembro de 1831, e foi batizada pelo Pastor Carl Leopold Voges, em 18 de fevereiro de 1832.
Voges exerceu seu pastorado em Três Forquilhas, mas também de forma itinerante. Há registros de que celebrou quase 100 batismos na colônia Dois Irmãos, entre 1831 e 1833.
Em 16.3.1992, durante minhas férias em Torres, fui a Itati, distante 55 km, e visitei a Comunidade Evangélica de Três Forquilhas. Itati é o nome indígena imposto, em substituição à antiga denominação daquela colônia alemã, mas a comunidade evangélica a manteve. O Pastor Edemar Zizemer disponibilizou-me o livro eclesiástico do Pastor Voges, onde encontrei o registro de nascimento e batismo de Louisa.

Transcrição:
Louisa, eine Tochter des Philip Niederauer und der Catharina geboren Diehl eheliche Tochter wurde den 14ten  November 1831 geboren und 18ten   Februar getauft. Philip Niederauer gebürtig aus Kettenheim Rhein-Provinz Hessen, Catharina gebürtig aus Thalsheim. Tauftzeugen Johann Anton Neumann und seiner Ehefrau Louisa.
Tradução:
Louisa, filha legítima de Philip Niederauer e de Catharina, nascida Diehl, nasceu em 14 de novembro de 1831 e foi batizada em 18 de fevereiro de 1832. Philip Niederauer é natural de Kattenheim, Província Rheinhessen, e Catharina é natural de Thalsheim. Testeminhas de batismo: Johann a?nton Neumann e sua esposa Louisa.
Come era costume, a menina recebeu, no batismo, o nome de sua madrinha.

Santa Maria
Nove anos depois, no início de 1840, em plena Guerra dos Farrapos, a família chegou a Santa Maria da Boca do Monte. Eram Philipp Leonhard, 43 anos, sua esposa Anna Catharina e as filhas Elisabetha, 11, Louisa, 8, e Joanna Sophia, 5 anos.O primogênito Johannes Niederauer Sorinho, 13 anos, ficara em São Leopoldo e Porto Alegre, em estudos e trabalho..
As viagens eram feitas pelo Rio Jacuí até Rio Pardo. Depois, em mulas de carga e carretas, pela primitivas estradas, até Santa Maria, num percurso de cerca de 170 km.
Pouco depois da chegada à povoação santa-mareiense, faleceu Anna Catharina Diehl Niederauer, em 10 de junho de 1840. Foi sepultada no Cemitério da Capela, junto à pequena igreja católica, no local onde, 82 anos depois, foi erguido o monumento em honra do seu heroico filho, o Coronel João Niederauer Sobrinho.
A primitiva igreja católica de Santa Maria e o Cemitério da Capela.
Desenho de autor desconhecido, supostamente em 1884.

Casamento
Aos 22 anos. em 6 de junho de 1854, Louisa casou com Jacob Ludwig Laydner 24 anos. O casamento foi celebrado pelo Vigário Antonio Coelho Gomes do Valle, na citada igrejinha católica. No livro de registros, seu nome foi escrito Luiza.. Os Niederauer eram evangélicos, porém não havia sua igreja em Santa Maria, cuja comubnidade somente seria fundada em 1866. Por isso e proque o noivo era católico, o matrimônio foi celebrado nessa religião.
Laydner chegara à vila santa-mariense três anos antes e se estabelecera com residência e casa de ourives, na Rua Pacífica, em prédio que mandara construir em 1853.
A casa de Jacob Ludwig Laydner tinha linguagem arquitetônica mais simples,
até que seu genro, Ildefonso Brenner a reformou, no final dos anos 1920.

A denominação mudou para Rua do Comércio e Rua Doutor Bozano. Ali nasceram os oito filhos (quatro homens e quatro mulheres) do casal, inclusive a última, minha avó Lydia Laydner, depois Brenner. Na mesma casa nasceu minha máe, Maria Luiza, bem como minha irmã Maria Helena e eu. 

Maria Luiza Niederauer Laydner faleceu em 7.4.1891, com 59 anos de idade.
Nos registros de nascimento e de casamento, seu nome foi escrito Louisa e Luiza, mas, na família, era chamada Maria Luiza, como está na inscrição em seu jazigo, no Cemitério Municipal de Santa Maria.

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Fontes:
Arquivo pessoal
BRENNER, José Antonio. A saga dos Niederauer. Santa Maria Editora UFSM, 1995.
Livro eclesiástico da Comunidade de Três Forquilhas, Itati, RS.
Livro de Casamentos da Igreja Matriz de Santa Maria, 1854.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Philipp Jacob Schirmer – 207 anos


Philipp Jacob Schirmer
Este dia 11 de agosto de 2017 marca os 207 anos do nascimento de Philipp Jacob Schirmer. Ele era o pai de Maria Dorothea que casou com Peter Brenner – meus bisavós paternos. Portanto Philipp Jacob Schirmer é meu trisavô paterno, como também o é do nosso ex-prefeito Cezar Augusto Schirmer.
Quando escrevi sobre ele, em Os primórdios da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria, há 18 anos, informei que ele nascera em 1810, na cidade de Kalternnordheim, no Reino da Saxônia.
O ano fora deduzido da idade declarada por Philipp quando, aos 19 anos, casou em Campo Bom, em 17.10.1829. O local fora obtido no registro de casamento, onde consta, na tradução:
Maria Catharina Böbion Schirmer
Livro I 1824-1844
Philipp Jacob Schirmer e Maria Catharina Bebian (na verdade, Böbion)
Noivo: o solteiro Philipp Jacob Schirmer, de Kaltennörding, 19 anos, evangélico. Filho legítimo de Georg Schirmer, de Kaltennördig, na Saxônia, e Catharina Elisabeth, nasc. Heinz.
Não sendo identificada Kaltennörding ou Kaltennördig, houve a suposição de que o local fosse Kaltennordheim, cidade no Reino da Saxônia, atualmente Turíngia.
Essa cidade foi, porém, o local de origem do pai de Philipp.

O nascimento de Philipp Jacob Schirmer
Datas e locais certos
Há dois anos, Heinz-Walter Burckhardt, natural de Waldlaubersheim e residente em Frei-Laubersheim, 18 km ao sul, realizou pesquisa de inestimável valor, obtendo o registro de nascimento de Philipp Jacob
Heinz-Walter Burckhardt
Schirmer e o registro de casamento de seus pais. Esses valiosos documentos revelaram nomes, datas e locais.

Os registros foram escritos em francês porque desde a invasão das tropas revolucionárias francesas, em 1794, os territórios germânicos a oeste do Reno foram dominados pela França, notadamente após o ano seguinte, quando, pelo 1º Tratado de Basileia (Basel), o Reino da Prússia reconheceu esse domínio.
Georg Schirmer, natural de Kaltennordheim, migrou para a região do Hunsrück, 200 km ao sudoeste, e estabeleceu-se na pequena Waldlaubersheim. Nessa localidade, o jovem tecelão de 23 anos casou, em 12 de novembro de 1809, com Catharina Elisabetha Heinz, 22 anos, ali nascida.

Trecho inicial do registro de casamento de Georg Schirmer
 com Catharina Elisabetha Heinz.

Tradução: No ano de 1809, dia 12 de novembro, às 10 horas da manhã, perante nós, Joseph Dheil, prefeito de Windesheim, oficial do estado civil da Prefeitura de Windesheim, Cantão Stromberg, Departamento do Reno e Mosel, compareceram George Schirmer, 23 anos, filho menor de Jean Gaspard Schirmer e Catherine Madeleine Flockin, tecelão, natural de Kaltennordheim, na Alemanha, domiciliado em Waldlaubersheim, o pai e a mãe concordam com este casamento que resulta do ato devidamente emitido pelo ministro de Kaltennordheim, em 18 de setembro último e revisado pelo encarregado de negócios franceses em Frankfurt, em 19 de outubro último, e Catherine Elisabete Heinz, solteira, 22 anos, filha maior do agricultor Gaspard Heinz e de Jeannette Heinz, sua esposa, de Waldlaubersheim, ali residente.

O sobrenome da mãe deveria ser Flocke. Flockin é a feminização do nome, como era costume, algumas vezes, na época, conforme encontrei em documentos de outras famílias. O sobrenome Flocke existe atualmente na região e em várias outras da Alemanha.
O registro cita Georg como filho menor e sua noiva como filha maior porque o Código Civil francês de 1804 (artigo 488) estabelecia a maioridade civil aos 25 anos para os homens e aos 21 anos para as mulheres. 
Philipp Jacob foi o primeiro filho do casal, nascido em 11 de agosto de 1810.
Georg Schirmer percorreu os 3 km até a Prefeitura de Windesheim, à qual Waldlaubersheim deveria estar subordinada, e registrou seu primogênito sete horas após o nascimento.


Tradução: No ano de mil oitocentos e dez, a onze de agosto, às duas horas da tarde, perante nós, Joseph Dheil, prefeito e oficial do estado civil da Prefeitura de Windesheim, Cantão de Stromberg, Departamento do Reno e Mosel, compareceu George Schirmer, tecelão domiciliado em Waldlaubersheim, o qual nos apresentou uma criança do sexo masculino, nascida hoje, às sete horas da manhã, dele declarante e de Catherine Elisabete Heinz, sua esposa, e ao qual ele declarou querer dar os prenomes de Philippe Jáques, as ditas declaração e apresentação feitas em presença de Conrad Offenberger, agricultor, com idade de quarenta e um anos, domiciliado em Windesheim, e Philippe Steger, agricultor, com idade de vinte e cinco anos, domiciliado em Waldlaubersheim, e o pai e as testemunhas assinaram conosco o presente registro, depois de feita a leitura.
Mapa da região, onde estão destacasdas liocalidades citadas.

Os franceses consolidaram sua ocupação, organizando a região em Départments e impondo seu sistema administrativo. Os registros de nascimento e de casamentos eram escritos na língua dos invasores, e até mesmo os nomes de batismos dos contraentes e das crianças registradas eram vertidos para o francês.
Assim, os nomes dos pais de Georg Schirmer foram escritos Jean Gaspard e Catherine Madeleine, quando deveriam ser Johann Caspar e Catharina Magdalena. O nome da noiva, escrito Catherine Elisabete, seria Catharina Elisabetha, e os de seus pais, escritos Gaspard e Jeannette, seriam, na verdade, Caspar e Johannetta.
Assinaturas de Caspar Schirmer e de Caspar Heintz

O filho de Georg Schirmer foi registrado Philippe Jaques, quando, certamente na Martinskirche, ele foi batizado Philipp Jacob, nome que usou por toda a vida.
Podemos supor que os casamentos, batismos e confirmações da família Schirmer foram celebrados na Martinskirche, a Igreja de Martin, em Waldlaubersheim. Ela foi construída por volta de 1190, e data dessa época a torre em estilo românico que, em 1500, recebeu a cobertura em gótico tardio, com quatro minitorres nos cantos.
O órgão ali existente foi fabricado, em 1742, pelo famoso Johann Michael Stumm, cuja família produziu mais de 370, dos quais ainda existem 140, considerados como jóias musicais e históricas.
Imigração
A família imigrante Schirmer chegou à Colônia Alemã de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil, em 14.2.1827. Eram Georg Schirmer, sua esposa Katharina Elisabetha e os filhos Philipp Jacob, Kaspar, Jacob e Jacob Adam
Estabeleceram-se no lote colonial nº 207, em Campo Bom, onde, dois anos depois, Philipp Jacob casou com Maria Katharina Böbion, natural de Niederlixweiler/Sarre.
Em 1857, Philipp Jacob Schirmer, com a esposa, filhos, genros, nora e netos – um grupo familiar de 18 pessoas – mudaram para Santa Maria. Estabeleceram-se junto ao Rio Vacacaí-Mirim, em uma grande área adquirida por Philipp com cerca de 260 hectares, da qual o atual sub-bairro Vila Schirmer é uma parte.

Philipp Jacob Schirmer foi personagem de destaque em Santa Maria, especialmente no âmbito da etnia alemã. Em 8.4.1866, ele foi fundador e membro da primeira diretoria da Deutsche Evangelische Gemeinde, a Comunidade Evangélica alemã de Santa Maria. no mesmo ano, em 28 de outubro, ele foi membro da diretoria de fundadores do Deutscher Hilfsverein, a Sociedade Beneficente Alemã que, depois de várias transformações, é hoje a Sociedade Concórdia Caça e Pesca, a mais antiga associação da cidade e uma das mais antigas do Estado.

Philipp Jacob Schirmer faleceu com 70 anos de idade, em Santa Maria, onde viveu por 24 anos, gerando extensa e importante descendência, e onde suas atividades geraram frutos nos setores comunitário, associativo, assistencial e social, que se estendem até a atualidade.
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Fontes:
  • Arquivo pessoal
  • BRENNER, José Antonio. Os primórdios da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Maria, nº 6, 1999.
  • Pesquisas de Heinz-Walter Burckhardt, Waldlaubersheim, Alemanha.