quinta-feira, 21 de abril de 2022

Família Grau – Antes da emigração II

Ofensa ao Kaiser

Karl I - Rei de
Württemberg 1864-1891
A história oral familiar conta que Hieronymus Grau precisou emigrar porque teria ofendido o Kaiser, publicamente, em uma taverna. Súdito do Reino de Württemberg, é possível que Hieronymus tenha proclamado sua indignação ao saber que o Rei da Prússia, Wilhelm I, se tornara Imperador de todos os estados germânicos,
inclusive Württemberg. Há a possibilidade de ele ter dirigido a ofensa também a Karl I, Rei de Württemberg, sob cuja liderança esse reino integrou o Império Alemão. Homossexual, Karl I foi protagonista de vários escândalos devido ao seu envolvimento com alguns homens.

Périplo

Um indicativo de que tal afronta tenha ocorrido foi a sucessiva mudança de Hironymus e sua famílias para várias cidades no Reino de Württemberg e no Grão-Ducado de Baden, entre 1871 e 1890, até seguirem para Hamburg, onde embarcaram para o Brasil. Estaria o chefe da família Grau se eximindo de alguma ação punitiva durante quase 20 anos?

O mapa mostra, em sequência de 1 a 5, as cidades onde viveu a família Grau antes da emigração. Foi determinada pelos registros de casamento do casal e de nascimento de vários filhos, obtidos em recente pesquisa de Karin Grau-Kuntz, trineta do genearca Julius Hieronymus Grau.

Datas e Locais

Julius Hieronymus n. 2.4.1841 cc 31.8.1869 Pauline n. 12.3.1843 Schorndorf            Reutlingen

Filhos                     nascim.                     local

Julius                      possiv. 1870-71        ?

Marie                       22.9.1874                Stuttgart – Bairro Gablendorf

                               Marie f. 18.11.1874       “

Albert                     1875                         ?

Karl Wilhelm          27.2.1877                 Ravensburg

August Oskar          30.10.1878               Freiburg im Breisgau

Paula                      ?.?.1881                    ?

Clara                       ?.?.1882                    ?

Wilhelm Alfred      17.7.1885                 Stuttgart - Ludwigstraße 51

Hugo Alfred           7.8.1890                   Hamburg (f.antes de 5.10.1890)

 A família Grau embarcou em Hamburg, no navio Bahia, que partiu em 5.10.1890 e chegou ao Rio de Janeiro no dia 29 do mesmo mês. O navio pertencia à Hamburg Süd, fundada em 1871 como sucessora da Hamburg-Brasilianischen Dampfschiffartz-Geselschaft. Talvez isso explique a denominação.

Antes da viagem, os Grau ficaram algum tempo em Hamburg, pois ali nasceu, em 7.8.1890, dois meses antes do embarque, Hugo Alfred Grau, filho de Julius Hieronymus e Pauline. A criança certamente faleceu com pouco tempo de vida, pois seu nome não consta na lista de passageiros.

Trecho ref. à família Grau da lista de passageiros do navio Bahia, obtida no Staatsarchiv Hamburg



quarta-feira, 20 de abril de 2022

Família Grau

 

Elsa Grau Lippold aos 37 anos
Alguns de nossos antepassados sentiram a necessidade de anotar informações básicas sobre a história da família. Tais anotações, mesmo que resumidas, tornam-se valiosas para a descendência conhecer fatos e feitos de seus antecessores familiares.

Assim fez Elsa Grau Lippold quando, em um manuscrito de 19 linhas, em uma folha de 20 x 20 cm, registrou importantes dados sobre seu pai, August Oskar Grau. A anotação não está datada, mas foi escrita após o falecimento de Erwin Grau, ocorrido em
22.1.1947.            

Ronaldo Lippold, quando de sua mudança para o Bairro Camobi, em Santa Maria, encontrou o manuscrito de sua mãe e, em 6.3.2014, visitou-me, trazendo o documento, que serve de fio condutor para as postagens Família Grau.

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Período anterior à emigração

De início, é preciso narrar parte da história da família na terra natal, com base em dados genealógicos obtidos em  recente pesquisa de Karin Grau-Kuntz, filha do Prof. Eros Roberto Grau. Após Mestrado e Doutorado em Direito pela Ludwig Maximilian Universität, ela fixou-se em Munique, onde constituiu família. É coordenadora acadêmica e pesquisadora na Alemanha (Estudos Europeus) do Instituto Brasileiro de Propriedade Intelectual. 

 Reutlingen

O marceneiro Julius Hieronymus Grau nasceu em 2.4.1841, em Reutlingen, 31 km ao sul Stuttgart, a capital do Reino de Württemberg. Em 31.8.1869, ele casou com Pauline Johanne Hettinger, nascida em 12.3.1843, em Schorndorf, 50 km ao nordeste da cidade do noivo. Reutlingen tinha então cerca de 13.000 habitantes e atualmente tem 115.000. Estabelecida sobre antigo assentamento celta dos séculos VI e IV a.C., Reutlingen foi mencionada pela primeira vez em documento no ano 1089.

Reutlingen - A torre com seu portão (Tübinger Tor) foi construída em 1235, como parte da muralha. Foi ampliada em 1330 com um andar em enxaimel. Tem 36 metros de altura. 

Na época do casamento, a Europa vivia em guerras. Primeiramente, houve a Guerra dos Ducados na qual a Prússia enfrentou a Dinamarca e invadiu os Ducados de Schleswig e de Holstein, em 1864. Em seguida, ocorreu a Guerra Austro-Prussiana, em 1866, contra os austríacos e, por fim, houve a Guerra Franco-Prussiana, em 1870-71. Após a derrota da França, foi consolidada a unificação germânica.

Unificação da Alemanha

Kaiser Wilhelm I
Até então, não havia a Alemanha como nação. A região germânica era formada por 39 estados soberanos: reinos, grão-ducados, ducados, principados e cidades hanseáticas. Havia entre eles grandes diferenças quanto ao poder econômico, militar e à extensão territorial, mas tinham a mesma base cultural. Além do idioma comum, havia a aliança aduaneira (der Zollverein) com liberdade alfandegária entre as fronteiras, o que facilitava o comércio e os processos industriais, excluindo o Império Austríaco, que era rival do Reino da Prússia.

Após os três conflitos entre grandes nações europeias, acima citados, a unificação alemã foi estabelecida no dia 18 de janeiro de 1871, na Galeria dos Espelhos do Palácio Varsalhes, quando os príncipes dos estados alemães proclamaram o Rei da Prússia, Wilhelm I, como Imperador. 

Surgiu assim o Império Alemão (Deutsches Reich), e o Imperador Wilhelm I recebeu o título de Kaiser, antes usado por imperadores do Sacro Império Romano-Germânico (962-1806). O nome Kaiser tinha origem no latim Cæsar, referente ao imperador romano Júlio Cesar (49 a.C e 45 a.C.).

Fontes:

Arquivo pessoal

Pesquisa de Karin Grau-Kuntz (Munique)

Díario do Interior

A Federação

Wikipedia


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Rua Doutor Vauthier

   Em decorrência do recente movimento do Coletivo Memória Ativa quanto à correção das placas denominativas da Rua Ernesto Beck, faço esta postagem referente à Rua Doutor Vauthier, na Vila Belga. Ao longo dos seus 320 m que se estendem entre as ruas Manoel Ribas e Treze de Maio não há placas denominativas, mas o nome está erradamente escrito com “W” nos endereços da internet, no site de CEPs e no mapa do Google.

A denominação da rua é uma homenagem ao engenheiro belga

    Gustave Charles Vauthier com inicial “V”

    Ele nasceu no dia 11 de janeiro de 1861 em Bruxelas (Bélgica) e faleceu aos 62 anos, no dia 5 de abril de 1923 em Ponta Grossa, Paraná.

   

Eng. Gustave Charles Vauthier. Imagem obtida a partir de foto publicada na Revista Commemorativa do Centenário de Santa Maria 1914.

Era filho de um ilustre cidadão belga: Alfred Vauthier, que foi prefeito de Bruxelas, Doyen (Decano) da Faculdade de Direito da Université Libre de Bruxelles 1887, Presidente do Supremo Tribunal da Bélgica e Presidente da Ordem dos Advogados da Bélgica.

    Em 1884, Gustave Vauthier formou-se Ingénieur des ponts et chaussées (Engenheiro de pontes e estradas) na Universidade de Gent (Gante), cidade 60 km ao noroeste de Bruxelas. Gante (em neerlandês e alemão Gent, em francês Gand) é uma cidade belga, capital da província de Flandres Oriental.

A Universidade de Gante (em flamengo Universiteit Gent) é uma universidade pública da Bélgica, uma das maiores do país, com cerca de 32.000 alunos e 7.100 funcionários docentes e não docentes.

    Vauthier começou a trabalhar como engenheiro na Compagnie du Chemin de Fer du Grand Central Belge. Em 1887, passou à Compagnie du Congo pour le Commerce et l'Industrie e mudou-se para esse país aonde foi planejar o traçado da futura estrada de ferro Matadi-Léopoldville.

    As empresas belgas, Compagnie des Chemins de Fer Sud-Ouest Brésilien e a Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil trouxeram de 1891 a 1914 vários engenheiros e técnicos belgas, entre os quais Gustave Vauthier, para a construção e a gestão de estradas de ferro no Paraná e Rio Grande do Sul.

    Vauthier trabalhou para a Compagnie des Chemins de Fer Sud-Ouest Brésilien em Ponta Grossa (Paraná) onde conheceu sua esposa Maria da Conceição Ribas. O casal teve três filhas Suzanna, Helena, Alice e um filho, Alfredo.

Gustave Vauthier e Conceição Ribas Vauthier - foto arquivo da família

    O engenheiro Vauthier exerceu o cargo de diretor geral da  Compagnie Auxiliaire entre 1898 e 1910 e, num segundo período, entre 1919 a 1920. Ele radicou-se na cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul onde a Compagnie montou seu centro de operações.

    Em 1905, Vauthier convidou seu cunhado Manuel Ribas, de Ponta Grossa, para gerenciar o armazém de fornecimento aos seus funcionários da ferrovia, o Économat. Manteve-se no cargo quando o Économat, obrigado a fechar por lei federal, foi assumido por Antonio Alves Ramos. O Armazém Ramos foi logo passado à Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea, após sua fundação em 1913. Desempenhou a função de gerente até 1920, e daí em diante como diretor geral. Em 1928 foi eleito intendente de Santa Maria que, em 1930, passou a denominar-se prefeito, função que ele ocupou até 1932, quando foi nomeado interventor no Paraná.

    Gustave Vauthier era figura conhecida e respeitada na sociedade local. Foi o idealizador e construtor da Vila Belga em Santa Maria. Também participou como consultor técnico da comissão construtora da nova igreja matriz Nossa Senhora da Conceição, em Santa Maria. Uma placa memorativa da comissão está afixada à entrada da hoje Catedral Metropolitana.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Arquitetos/UFRGS 1958 – 63 anos

    A nossa turma de Arquitetos de 1958 da Faculdade de Arquitetura da UFRGS completa 63 anos de formatura nesta sexta-feira (17.12.2021). A colação de grau foi realizada no Salão de Atos da UFRGS. No dia da formatura, a turma posou  para a foto com o Paraninfo na escadaria da Faculdade de Arquitetura.

    Iniciamos o curso em março de 1954, quando havia menos de dois anos que fora criada a Faculdade de Arquitetura. 

    Em decorrência da forte mobilização estudantil, o Decreto Federal número 30.944, de 19 de junho de 1952, unificou os dois cursos então existentes que formavam Arquitetos, um na Escola de Engenharia e outro no Instituto de Belas Artes, ambos da mesma universidade. 

Ao fundo, atrás das árvores, o antigo prédio da
Faculdade de Arquitetura da UFRGS.

   O concurso vestibular da nossa turma e quase todo o curso foram realizados em uma edificação acanhada e inadequada entre o Observatório Astronômico e a Escola de Engenharia, ambos da UFRGS, em frente à Praça da Argentina. 

Só o último ano foi cursado no novo prédio, na Rua Sarmento Leite esqina Av. Osvaldo

Presidente Juscelino Kubitschek inaugura, em jan./1958
Aranha, inaugurado em janeiro de 1958 pelo presidente Juscelino Kubitschek (foto). O autor do projeto de Arquitetura foi o Arquiteto Fernando Petersen Lunardi, docente da Faculdade (foto abaixo).

 

O paraninfo escolhido foi o arquiteto Rino Levi, então professor da Faculdade de

Arquiteto Rino Levi
Arquitetura e Urbanismo da USP.  Ele participou da criação do Instituto de Arquitetos do Brasil, onde foi membro atuante por toda a vida, participando, inclusive, do projeto de construção do edifício-sede da seção paulista, que presidiu em 1952. Levi também foi expoente da Arquitetura Moderna no Brasil e um dos responsáveis pela transformação da arquitetura da cidade de São Paulo.

Entre suas principais obras estão o Cine Art-Palácio Recife (1936), Instituto Sedes Sapientiae (1940), Cine Ipiranga (1941), Teatro Cultura Artística (1942), Edifício Prudência (1944), Hospital do Câncer (1947), Edifício Seguradora Brasileira (1948), Hospital Albert Einstein (1958) e o Centro Cívico (1965), atual Paço Municipal de Santo André. 

Os professores homenageados foram o artista visual Ângelo Guido, os arquitetos Demétrio Ribeiro, Edgar Graeff, Emil Bered, Enilda Ribeiro e Manoel Meira, além dos engenheiros Ivo Wolff, Paulo Gomes de Freitas e Urano Eichenberg.

Em 1º de dezembro de 1958, a turma ofereceu um jantar ao paraninfo e aos professores homenageados, no Recreio Avenida, um restaurante que havia no Quarto Distrito, muito apreciado pela excelência do serviço. Participaram todos os homenageados e 31 formandos, inclusive eu, à direita, em frente ao ventilador.

Entre 36 colegas, os mais próximos eram João Paulo Umpierre Pohlmann, Fernando Gonzalez, Hugolino Pra, Nei Mário Carneiro, Sylvia Lewgoy, Gina Raffin, Pedro Simch e Edgar do Valle.

Mantenho até hoje contatos com o amigo e colega João Paulo Pohlmann e com o apreciado Prof. Emil Bered.

domingo, 19 de setembro de 2021

Franz Karl Brenner – 190 anos

 É tempo de lembrar meu bisavô materno, nos 190 anos de seu nascimento.

Franz Karl Brenner nasceu em 17 de setembro de 1831, em Ellweiler, pequena aldeia do Principado de Birkenfeld. Era filho do estalajadeiro Johann Michael Brenner e Maria Dorothea Barth Brenner, natural

de Sötern, 10 km a oeste.

O Principado de Birkenfeld era um território de 503 km2, na região do Hunsrück, um enclave na Província Prussiana do Reno, mas não pertencente a ela. E assim foi mantido até a unificação da Alemanha, em 1871. Em 1817, após o Congresso de Viena (1814-15), que redesenhara o mapa político europeu, depois da derrota da França napoleônica, o Principado passara a pertencer ao Grão-Ducado de Oldenburg.

Ellweiler fica 8 km ao sul de Birkenfeld, cidade sede do Principado e origem da família Brenner da minha linha linha paterna. Teria havido um ancestral comum, o ferreiro Johannes Nikolaus Brenner, nascido em Brücken, em 1657, mas ambas as famílias Brenner não poderiam se considerar parentes. Tal distanciamento na consanguinidade era muito mais acentuado entre meus pais, por isso minha irmã Maria Helena e eu fomos registrados com o duplo sobrenome Brenner de Brenner. 

Além das localidades citadas no texto, o mapa mostra Abentheuer, a oeste, local onde viveu o mais antigo ancestral Brenner que conhecemos. Em 1540, o vilarejo se chamava Leyen, onde a família de Hans Brenner, chamado "der Alte von der Leyen" -- o velho de Leyen --, tinha quatro casas, um moinho e uma serraria movidos a roda d'água.

Emigração - Profissão

Franz Karl Brenner era um adolescente quando emigrou para o Brasil, em 1846, na companhia da família de sua irmã Katharina, 25 anos, casada com Johann Jakob Cullmann e suas três crianças. 

Franz Karl acompanhou por cerca de dois anos a família de sua irmã que se estabeleceu na Colônia Alemã de São Leopoldo. Aos 18 anos mudou-se para Porto Alegre, onde aprendeu o ofício da alfaiataria, residindo na Rua da Praia nº 285, provavelmente na casa de seu mestre alfaiate, como costumavam fazer os aprendizes. Em 1858, com 27 anos, estabeleceu-se em Santa Maria, onde passou a ser chamado Carlos Brenner. Três anos depois, casou com a santa-mariense Christiana Hoffmeister, filha do imigrante Mathias Hofmeister.

Carlos Brenner prosperou com sua alfaiataria e como comerciante, na Rua do Comércio, atual Doutor Bozano. O casal teve 13 filhos, dois dos quais faleceram pouco depois do nascimento. Sua condição financeira possibilitou-lhe enviar seu primogênito para estudar na Alemanha. Ildefonso Brenner, meu avô materno, durante quatro anos estudou na famosa Europäischen Moden-Akademie, Academia Européia de Moda, em Dresden. Os alunos aprendiam contabilidade, aritmética, letras, estilística, idiomas etc. e principalmente método de corte e feitio. Passavam por um treinamento técnico e científico para poder assumir mais tarde a liderança de um negócio maior. Às margens do Rio Elba e cercada pela floresta de Heide, Dresden é conhecida como "a Florença do Elba" devido à harmonia de sua beleza natural com sua belíssima Arquitetura. No final da 2ª Grande Guerra, a cidade, que não tinha alvos militares, foi cruelmente destruída pelos bombardeios Aliados. 

Religião

Carlos Brenner era luterano, assim como também tinham sido os pais de Christiana. Entretanto, ela e seus irmãos haviam sido batizados na Igreja Católica, porque em Santa Maria não havia a Igreja de seus antepassados e eram raras as visitas de pastores itinerantes. A Igreja Luterana-Evangélica de Santa Maria só seria fundada cinco anos após o casamento de Carlos e Christiana, celebrado 10.9.1861 na primitiva igrejinha católica de Santa Maria onde hoje está o monumento ao Cel. Niederauer.

Mas Carlos Brenner estava entre os fundadores da Deutsche Evangelische Gemeinde de Santa Maria da Boca do Monte, a Comunidade Evangélica Alemã, fundada em 8 de abril de 1866. Sua tradição familiar, sua cultura e sua fé religiosa – pois trouxera da Alemanha sua Bíblia luterana, que conservou até sua morte – o mantiveram ligado à religião de seus antepassados. Durante seu curto período em São Leopoldo e, depois, nos nove anos em que vivera em Porto Alegre, Carlos dispusera dos ofícios de sua religião.

A história oral conta que, nas manhãs de domingo, Carlos e Christiana saíam juntos de sua casa na Rua do Comércio, mas tomavam rumos diferentes: Ele ia ao culto na igreja luterana, na Praça da República (atual “dos Bombeiros”), enquanto ela se dirigia à matriz católica na Capela do Divino, na Av. Rio Branco, esquina Rua dos Andradas.

Filhos

O casal teve 13 filhos, dois dos quais faleceram pouco depois do nascimento.

Ildefonso ê13.06.1862  †10.04.1951

Germano ê 8.1.1864  † 20.3.1928

Etelvina Veronica ê 4.2.1866  - † 7.5.1957

Júlio ê 24.2.1868   -    † 12.02.1939

Isabel ê11.11.1869    † 5.4.1898 (c/ 28 anos e 6 meses).

Percival ê15.2.1871  † 24.8.1949

Alfredo ê23.5.1874  † 28.2.1935

Fructuosoê18.9.1876 Santa Maria  

Albino ê15.2.1879   † 24.3.1879 (c/40 dias)

Adelma ê 8.3.1880 † 22.9.1960

Alice ê14.9.1882 † 14.9.1918 (no dia em que completava 36 anos)

  • José  ê18.4.1885  † 20.4.1885 Santa Maria  (c/2 dias)

    Oscar ê14.9.1886 

      

    Carlos Brenner faleceu com 73 anos de idade, em 18.10.1904, e sua viúva Christiana lhe sobreviveu apenas 19 horas. Ela já sofria de grave doença e não suportou a perda do marido, morrendo no dia seguinte, com 60 anos de idade.

    À direita, o necrológio publicado na 1ª página do jornal santa-mariense O Combatente, em 23.10.1904, obtido na hemeroteca digital da Casa de Memória Edmundo Cardoso, em Santa Maria.


      Mausoléu 

      sábado, 7 de agosto de 2021

      Mais que centenários (1)

      Quem vive na mesma casa desde que nasceu, convive com objetos que pertenceram aos seus bisavós, avós e pais, por isso muito ligados à história da família. É o meu caso. Aqui nasci há 87 anos, na casa construída por meu bisavô materno, Jacob Ludwig Laydner, em 1853, na então Rua do Comércio, atual 2ª Quadra da Rua Dr. Bozano, nº 1065. Vivi em outros lugares somente nos cinco anos quando estudante no Curso de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre.

      Presente de casamento

      Inicio esta série de postagens com um conjunto de taças de cristal Baccarat. Não são os objetos mais antigos na casa, mas são mais que centenários. O jogo de taças foi um presente de casamento recebido por meus avós maternos Ildefonso Brenner e Lydia Laydner Brenner, em 7 de maio de 1902, há 119 anos. O casamento, celebrado nesta mesma casa, foi noticiado por O Combatente, antigo jornal de Santa Maria, em 8.5.1902: 



      Ildefonso era comerciante, e faltavam 37 dias para ele completar 40 anos. Lydia tinha 28 anos e era a filha mais jovem dos donos da casa, o ourives alemão Jacob Ludwig Laydner e sua esposa Maria Luiza Niederauer Laydner.

      Padrinhos do noivo: Antonio Alves Ramos, empresário da construção de ferrovias, e sua esposa Etelvina Brenner Ramos, irmã de Ildefonso. Padrinhos de Lydia: seu cunhado Oscar Hasslocher Haensel (com um "s"), 39 anos, comerciante em Porto Alegre, casado com Anna Julia, irmã de Lydia.  Oscar era filho do deputado Friedrich Haensel, executado pela polícia castilhista, em 1.11.1892, no preâmbulo da Revolução Federalista; Julio Laydner, três anos mais velho, era o irmão com quem ela tinha mais afinidade; e Henrique Grave, seu sobrinho, filho do médico alemão Heinrich Alfred Julius Grave e de Sofia, irmã da noiva, 19 mais velha.

      Cristal Baccarat

      São chamados de cristais os vidros de elevada transparência e qualidade. A história dos cristais Baccarat começou em 1775, na pequena cidade desse nome, na região de Lorena, nordeste da França. Naquele ano, o rei Luiz XV determinou o estabelecimento de uma vidraria batizada de Verreries Sainte-Anne.

      Baccarat, destacada em amarelo, fica a meio caminho entre Nancy e Strasbourg.

      Diz a lenda que todos os dias Luiz XV tomava vinho em uma taça de cristal Baccarat e depois a quebrava para que ninguém mais a usasse. Graças à sua história ligada à monarquia francesa e à fabricação de artigos de luxo, em cristal, a Baccarat produziu peças para vários reis da França, terminando com os últimos monarcas Luiz XVIII, Carlos X e Luiz Felipe. Muitas famílias afortunadas e empresas de luxo passaram a desejar o cristal que a realeza tanto apreciava. A marca ganhou força na decoração e no segmento de mesa, na Europa e no mundo.

      Antiga foto da Cristallerie Baccarat em 1933, mostrando a saída de operários

      A vidraria tornou-se uma Cristallerie - manufatura de de artigos de cristal - em 1816, quando Aimé-Gabriel d'Artigues, empresário do ramo na Bélgica, assumiu os negócios da antiga fábrica. Desde então, a marca é sinônimo universal de lapidação precisa e manufatura de objetos únicos, nas mais variadas formas: vasos, cinzeiros, lustres, candelabros, joias, bijuterias, frascos de perfume, acessórios femininos etc.  Para reis e plebeus abastados, Baccarat é status de opulência, charme e sofisticação real. As peças são lapidadas à mão como pedras preciosas, em processo artesanal com capricho e requinte.

      No Brasil existe o terceiro maior acervo de cristais Baccarat, ficando atrás somente da França e da Alemanha.

      Em 2018, a Baccarat foi comprada por uma companhia chinesa de gestão de investimentos, por 164 milhões de euros.

      Uma dúzia de taças

      O conjunto era de doze peças que nunca foram usadas por meus avós nem por meus pais. Há décadas, reformei um antigo guarda-roupa, substituindo sua pesada porta única por duas portas e instalando prateleiras internas onde as taças Baccarat foram guardadas. Em pouco tempo, o mau serviço do marceneiro provocou a queda da prateleira, quando duas taças quebraram. Restaram as dez apresentadas na foto do início desta postagem.

      Valor

      Na Vinhati Antiguidades, Bairro Floresta, em Porto Alegre, cada taça Baccarat custa R$500,00.


      __________________________________________ 

       Fontes: 

      •  Arquivo pessoal - 
      • Hemeroteca da Casa de Memória Edmundo Cardoso -
      • https://www.viamichelin.fr/- 
      • https://www.geneanet.org/cartes-postales/view/5401140#0 - 
      • https://aresdomundo.com/cristais-baccarat/ - https://en.wikipedia.org/wiki/Baccarat_(company)

      sábado, 1 de maio de 2021

      ADOLPH VON WALLWITZ – Um conde alemão em Santa Maria

       

      Adolph Esche Graf von Wallwitz nasceu em 15 de janeiro de 1848, em Dresden, filho do Conde Georg von Wallwitz e Maria von Kis-Serény.  (cfme CEGENS - Centro de Estudos Genealógicos do Vale do Rio Pardo)

      Brasão dos Condes von Kis-Serény
      desde 1656

      Dresden era então a capital do Reino da Saxônia (em alemão Königreich Sachsen), existente de 1806 a 1918, membro independente das confederações pós-Guerras Napoleônicas. Com a unificação da Alemanha, em 1871, tornou-se parte do Império Alemão. Em 1918, após a Primeira Guerra Mundial e abdicação do Rei Friedrich August III, a Saxônia tornou-se um Estado Livre da República de Weimar, continuando Dresden como capital.

      Situada às margens do Rio Elba, Dresden era chamada "a Florença do Elba" devido à harmonia de sua beleza natural com sua belíssima Arquitetura, intensa vida cultural e artística. Em 1945, nos últimos meses da 2ª Guerra Mundial, a cidade, que não tinha alvos militares, foi quase toda destruída por bombardeios dos aliados, causando uma chacina na população civil. Uma clara intenção de destruir uma das mais belas cidades alemãs.

       

      Dresden - das Florenz an der Elbe

      Santa Maria

      Von Wallwitz emigrou para o Brasil e, em 1873, estava estabelecido em Santa Maria com uma escola na Praça da Constituição, que em 1889 passou a se denominar Praça da República.[1] Instalou a escola no salão da antiga bailanta do alemão Miguel Lau.

      João Daudt Filho foi aluno no Colégio Wallwitz. Nascido em Santa Maria, em 1858, ele tinha 15 anos em 1873, quando von Wallwitz chegou à vila e abriu sua escola. Em suas Memórias,[2] Daudt Filho conta que o professor, com cerca de 25 anos, trajava com elegância, tinha "finas maneiras e um bonito rosto de pele rosada, marcado por um extenso gilvaz recente." Referia-se a uma cicatriz que supunha ser consequente de um duelo. Daudt prossegue, contando que alemães e descendentes matriculavam seus filhos no Colégio Wallwitz, mas que também muitos alunos de famílias brasileiras ali estudavam para aprenderem alemão. O colégio chegou a ter 132 alunos.

      Durante as aulas, Adolph von Wallwitz fumava um enorme cachimbo, segundo o autor, de "quase um metro", sotando baforadas de fumaça em forma de círculo, o que os alunos depois procuravam imitar, sem sucesso. Além do currículo básico, o professor alemão ensinava desenho, ginástica e canto. Daudt lembra: "No fim das aulas, cantávamos alegres Lieder[3]  alemães, e assim os alunos iam se familiarizando com a língua."


      Tipo de cachimbo
      supostamente usado
      por von Wallwitz
      .

      Em sua narrativa, João Daudt Filho acrescenta: 

      Vestido de caçador, botas amarelas, culote [4] de veludo verde, jaquetão cingido por largo cinturão com fivela de prata, chapéu enfeitado com plumas, trompa a tiracolo, espingarda às costas, com a Diana, perdigueira de raça ao lado, rumava em direção aos campos, à cata de perdigões.

       Naquela época, os caçadores não precisavam se afastar muito da pequena vila santa-mariense. Bastava uma caminhada para além dos limites urbanos a sudoeste, então um pouco adiante de onde hoje fica a Rua Visc. de Pelotas, para chegar às pradarias onde havia muitas perdizes e perdigões.

      Adolfo de Walhail ? - A Comunidade Evangélica Alemã (die Deutsche Evangelische Gemeinde)

      O registro de sua história, desde a fundação, em 1866, até a década de 1940, tornou-se uma tarefa difícil devido à destruição das fontes primárias. Todos os assentamentos, arquivos, biblioteca e demais pertences da Igreja Luterana local foram destruídos e queimados, durante os ataques sofridos em 19 de agosto de 1942, instigados pelos movimentos antigermânicos, na época da Segunda Grande Guerra. Na criminosa destruição, foram reduzidos a cinzas, 76 anos de história da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria e também da cidade, pois muitos de seus membros eram pessoas proeminentes na sociedade local. Entretanto, muitos registros de nascimentos e casamentos foram recuperados graças ao registro civil que fora criado para os acatólicos, em 1863.

      Registro Civil

      Muitas décadas antes da República, D. Pedro II decretou a regulamentação do registro civil, em 17.4.1863, para regularizar a condição social dos acatólicos, isto é, dos imigrantes alemães evangélicos e de seus descendentes. O catolicismo era a religião do Estado e somente seus registros eram reconhecidos. O Decreto do Imperador regulava o “registro dos casamentos, nascimentos e óbitos das pessoas que professavam religião diferente da do Estado”. O 1º capítulo tratava “dos casamentos de pessoas não católicas a quem eram extensivos os efeitos civis dos casamentos católicos.”

      Estabelecia as condições para que “pastores das religiões toleradas” pudessem praticar atos de seu ministério religioso, “suscetíveis de produzir efeitos civis.” Para isso, as atas de eleição ou nomeação dos pastores deviam ser registradas na Secretaria do Governo da Província, em Porto Alegre, mediante sua transcrição em livro específico. Atendida essa exigência legal, os casamentos, nascimentos e óbitos de acatólicos, se os interessados desejassem, podiam ser registrados em três livros, com a transcrição de certidão emitida pelo Pastor: Casamentos a cargo do Secretário da Câmara Municipal. Nascimentos e óbitos, a cargo do Escrivão do Juizado de Paz.

      Em minhas pesquisas no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, encontrei o valioso documento

      SECRETARIA DO GOVERNO DA PROVINCIA

      LIVRO DE REGISTROS DE PASTORES DAS RELIGIÕES TOLERADAS

      Na fl. 14 verso, a transcrição da ata de “Eleição de Erdmann Wolfram para Pastor Protestante da Communidade Evangelica da Villa de Santa Maria da Boca do Monte” tem o seguinte encerramento:

      Santa  Maria  3  de Junho de 1873   —  Em nome da mesa: o Secretario Adolfo de Walhail – O Presidente Otto Brinckmann  –  Os mesarios Henrique Druck,  Carlos Müller,  Pedro  Brenner,  Nicolaus Ehlers, Abraham Kassel, Jacob Winck.

      Os membros mais instruídos da Comunidade eram escolhidos para secretários da diretoria. Essa circunstância e a presença de von Wallwitz em Santa Maria indicam que o secretário de 1873, der Schriftführer, deveria ser Adolph von Wallwitz e não um inverossímil Adolfo de Walhail. Os sobrenomes Walheil ou Wahlheil existem, mas não os encontrei em minhas pesquisas sobre imigração alemã na região de Santa Maria.

      A ata transcrita no citado livro foi assinada pelo secretário, certamente na antiga grafia alemã – die alte deutsche Schrift. Von Wallwitz poderia ter adotado o aportuguesamento de seu nome, inclusive a troca da preposição alemã “von” pela portuguesa “de”.

      Apresento abaixo o nome Wallwitz escrito em duas formas, na antiga grafia cursiva alemã.

      O 2º Oficial da Secretaria do Governo da Província, Antonio José Lavra Pinto, encarregado da transcrição no citado livro, desconhecedor da paleografia alemã, fez uma errada leitura da assinatura de von Wallwitz. A sequência de letras “lwit” poderiam facilmente ser lidas como “hail”. O problema é o “z” final, a menos que fosse interpretado como um traçado finalizador da assinatura de von Wallwitz

      Placa Memorial

      Em Os primórdios da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria (IHG-S.Maria, 1999), comprovei de forma circunstanciada e documentada que uma placa de bronze, afixada no adro do templo, desde 1973, continha erros, entre eles – o mais grave – a troca do nome de um dos dirigentes fundadores, Philipp Schirmer, por um inexistente Philipp Ilmann. Em consequência, fui convidado, em 2001, a uma reunião da diretoria da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Santa Maria, quando sugeri que a placa fosse substituída. Integrei então uma comissão também composta pelo Pastor e alguns membros da Comunidade que aprovou meu projeto de duas placas, uma em memória da fundação da Comunidade, em 1866, e outra em memória da construção do templo, em 1873. Para o conteúdo dessa última, apresentei à comissão os indicativos de que o secretário deveria ser Adolph von Wallwitz, o que foi aprovado.

      As placas de bronze, medindo 43 x 70 cm cada uma, afixadas nos pilares internos que sustentam a torre da igreja, foram inauguradas em 5 de abril de 2009, domingo, após o culto memorial dos 143 anos da fundação da Deutsche Evangelische Gemeinde – a Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria

      Maçonaria

      No ano seguinte à sua chegada a Santa Maria, Adolph von Wallwitz participou da fundação da Loja Maçônica Boca do Monte, em 29.11.1874. Eram 54 fundadores, 25 dos quais alemães e descendentes, alguns já iniciados nessa confraria, em outros locais. Vinte anos depois, o nome, que era apenas uma referência geográfica, foi trocado para Loja Maçônica Paz e Trabalho, portando um conteúdo programático, denominação que mantém até hoje

      Santa Cruz

      Em 1878, Adolph von Wallwitz habilitou-se como agrimensor e mudou-se para Santa Cruz. Em 6 de fevereiro de 1884, casou-se em Faxinal, Santa Cruz, com Mercedes Ottilie Textor, nascida em 2 de junho de 1863, na Costa da Serra, filha de Carl Textor e Seferina de Oliveira. Costa da Serra é a denominação antiga da região de Trombudo, hoje Vale do Sol, Candelária, Cerro  Branco e arredores.

      Von Wallwitz faleceu com apenas 39 anos, em 4 de setembro de 1887, em Faxinal, Santa Cruz, supostamente o atual Bairro Faxinal Velho, a 3 km ao sul da Praça Getúlio Vargas, no centro.



      [1] Em 1963, foi rebatizada para Praça Ten. João Pedro Menna Barreto. É popularmente conhecida como. “Praça dos Bombeiros”. Talvez o único caso, no país, em que a denominação de um logradouro que evocava importante evento da história foi trocado pelo nome de uma pessoa.

      [2] Memórias/João Daudt Filho – 4ª ed., S. Maria Ed. UFSM, 2003.

      [3] Lieder, plural de Lied, significa canção, um tipo peculiar de canção característico da cultura germânica.  

      [4] Culote - Calça larga na parte superior e justa a partir do joelho, usada por militares e para montaria, em geral com botas de cano alto ou com perneiras.