segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Rodolpho Laydner – um ourives famoso

Rodolpho Laydner ~42 anos. Det. de foto
quando em visita a seu pai, em 1899.
   Nascido em Santa Maria, no dia 15 de abril de 1857, Rodolpho foi o primeiro filho homem de Jacob Ludwig Laydner e Maria Luiza Niederauer Laydner. O nascimento ocorreu na residência da família, construída três anos antes, na Rua Pacífica, depois Rua do Comércio. Após sucessivas reformas e ampliações, é a casa onde resido, na 2ª Quadra da Rua Doutor Bozano, 1065, assim renomeada, em 1924.

   Rodolpho Laydner tinha nove meses e meio quando foi batizado pelo Padre Antonio Gomes Coelho do Valle. O batismo foi celebrado na pequena e singela igreja católica da povoação, situada no local correspondente hoje à extremidade sul da Avenida Rio Branco, de frente para o espaço então destinado à praça.

   No Livro 5 de Batismos, fl. 25, da Igreja Matriz de Santa Maria, está registrado:
Rodolpho
Ao primeiro dia do mês de janeiro de mil oitocentos cincoenta e oito annos, nesta Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Santa Maria da Boca do Monte baptizei e puz os Santos Oleos ao innocente Rodolpho nascido a quinze de Abril de mil oitocentos cincoenta e sete filho legitimo de Jacob Luiz Laidner, natural d’Alemanha, e Luiza Laidner natural de São Leopoldo; netto paterno de João Laidner e Francisca Laidner; e netto materno de Filippe Niederauer e Anna Catharina Niederauer, todos os avós naturais d’Alemanha: Forão padrinhos João Veber e Maria Catharina Niederauer do que para constar fiz este assento. O Vig.º Antonio Gomes Coelho do Valle

   A madrinha, Maria Catharina Niederauer, era a esposa do então capitão João  Niederauer Sobr. - depois o heróico Cel. Niederauer -, tio do batizando, que partira, no mês anterior, integrando o Exército de Observação, para vigiar as fronteiras com os países platinos.
   O padrinho, João Weber, nascido em São Leopoldo, em 1829, casaria no ano seguinte, em 9.9.1858, com Joanna Sophia Niederauer, irmã de Maria Catharina.
   O Padre Antonio Gomes Coelho do Valle exerceu seu vicariato, em Santa Maria, de 17. 7.1853 até sua morte, em 9.11.1865.
   Rodolpho casou com Carolina Kümmel, nascida em 2.2.1862, filha de Carl Daniel Kümmel e Margarida Druck. Carolina era neta do genearca Johann Daniel Gottlieb Kümmel, nascido no vilarejo Lindenau/Prússia Ocidental, hoje Lipinka/Polônia. Foi o primeiro ferreiro da Colônia Alemã de São Leopoldo, aonde chegara em 12.8.1824.
   O casal teve os filhos: Rodolpho Laydner Filho (engenheiro civil, construiu a Hidráulica de São Leopoldo, em 1925), José Laydner, Augusto Laydner, Celina Laydner e Luiz  Laydner
   Aos 30 anos, Rodolpho e seu pai, Jacob Ludwig Laydner estavam entre os 31 fundadores do Clube Atiradores Santamariense, em 28 de setembro de 1887, então com sede na Rua Barão do Triunfo, onde havia o estande de tiro, em área cedida pelo presidente fundador Carl Müller.

   Ourives
   Jacob Ludwig Laydner, pai de Rodolpho, embora fosse um jovem de 19 anos quando imigrou na Colônia Alemã de São Leopoldo, em 1848, já tivera boa formação como ourives na Europa. Poucos anos depois se estabeleceu em Santa Maria e, por volta de 1853, ele abriu a Casa Laydner, especializada em ourivesaria, relojoaria, ótica e selaria, ao lado de sua residência, onde hoje está o prédio nº 1073 da Rua Dr. Bozano.
   Na Casa Laydner, Jacob Ludwig foi mestre de seus sobrinhos e de seus dois filhos mais velhos – Rodolpho e João David – e de seu concunhado Nicolau Mergener, que abriu sua loja, em 1863, na esquina abaixo, a Casa Mergener.

   Rodolpho foi o mais destacado dos filhos de Jacob Ludwig Laydner.
   Fez parte da equipe que realizou a locação da ferrovia Santa Maria-Passo Fundo, isto é, o reconhecimento preliminar que serve de base para o traçado definitivo, feito com levantamentos topográficos. O primeiro trecho seria iniciado em Santa Maria, em 1893, apesar da Revolução Federalista que convulsionava o Estado.

   R. Laydner & Cia.
   Seu irmão João David Laydner, cinco anos mais jovem, era ourives em Porto Alegre quando faleceu de "tifo preto", em 24.1.1899, com apenas 36 anos de idade.
   A viúva, Sophia Molz Laydner, então se associou com o cunhado Rodolpho Laydner. O contrato foi registrado em 8 de novembro de 1900, sob a razão social R. Laydner & Cia. no ramo de ourivesaria e relojoaria a varejo, pelo prazo de cinco anos, a contar de 22 de julho de 1899, com o capital de Rs 61:095$000 (61 contos e 95 e cinco mil réis). O contrato estabelecia:“se a viúva contrair novas núpcias deixará a sociedade.” Foi registrado na Junta Comercial do RGS sob nº 2648.
   A casa de ourives de R. Laydner & Cia. ficava no centro de Porto Alegre, Rua Marechal Floriano nº 110. No Guia Bemporat, edição 1908-09, página 173, sob o título “Ourivesarias e Relojoarias”, consta: R. Laydner e Cia., Rua Marechal Floriano, 110, em Porto Alegre.
   Há 106 anos, o Correio do Povo publicou, na edição de 3 de junho de 1908, a reportagem abaixo transcrita com atualização ortográfica:

Sela mexicana - Vimos ontem, na vitrina da Casa Laydner, à Rua Marechal Floriano nº 110, uma luxuosa sela mexicana, prontificada por encomenda do Coronel João Francisco. A carona, de couro de tigre, tem, aos cantos, escudos de prata, com incrustações de ouro, e o assento é de couro de porco. Os coldres e a maleta são de couro de tigre, com guarnições de prata e ouro, e o cabeço da sela ostenta o monograma do Coronel João Francisco. O trabalho de selaria foi prontificado na Casa Schneider & Cia., e o de ourivesaria na oficina dos Srs. Laydner & Cia., fazendo ambos honra à nossa indústria. O Coronel João Francisco utilizará esta sela nas cavalhadas que se realizarão no Rio de Janeiro, por ocasião da exposição nacional. 

   O cliente era João Francisco Pereira de Souza, líder político do Partido Republicano em Livramento, que comandava o Quartel do Caty, no interior do Município, junto à divisa com Quaraí. Era uma unidade militar criada para combater a Revolução Federalista. O Cel. João Francisco acumulou grande poder militar e policial na região da fronteira e, devido à crueldade de suas ações e sua fama de sanguinário, foi chamado por Ruy Barbosa de a "Hiena do Caty".
   A exposição citada, que decorreu de 11 de agosto a.15 de novembro de 1908, comemorava  centenário da abertura dos portos. Fazia parte do programa a encenação das "Cavalhadas", uma tradição portuguesa que representava as batalhas entre cristãos e mouros, na Reconquista da Península Ibérica.
   Exposição Estadual de 1901
   O governo do Estado promoveu uma exposição industrial e agropecuária, de 24 de fevereiro a 2 de junho de1901, instalada em uma grande área à esquerda e atrás do antigo edifício da Escola de Engenharia, em frente à Praça da Argentina.
   Participaram 60 municípios com 2.200 expositores entre os quais Rodolpho Laydner. O catálogo da exposição, no setor de "Ourivesaria e joalheria", página 247, apresenta:
Expositores: Laydner & C. - Rua Marechal Floriano n. 110
Expõem os seguintes artefatos, executados em suas oficinas por operários nacionais e rio-grandenses.
Um aparelho de trança de fio de prata de 1ª qualidade, ornamentado com as armas do Rio Grande, em ouro de 18 quilates, constando das seguintes peças:
1 peitoral, 1 buçalete com cabresto, 1 cabecada. 1 par de rédeas, 1 rabicho, 1 maneia, 1 chicote, 1 freio, 1 par de bocais, 1 par de estribos meia picaria, 1 dito de esporas.
Pesando tudo 8 kg de prata e 400 g de ouro, no valor de Rs5:000$000.
2 facas guarnecidas de prata e ouro, no valor de Rs350$000.
1 par de boleadeiras de marfim, aparelhadas de prata, no valor de Rs100$000.
1 aparelho de prata encorreado em couro de anta, no valor de Rs650$000.
   Valeria atualmente Rs$24.000,00 em prata e Rs$32.000,00 em ouro, somente no apero, sem considerar a mão de obra.
   Johann Carl Laydner, vitivinicultor em Santa Maria, tio de Rodolpho, também participou da exposição com “12 garrafas de vinho tinto”, conforme o catálogo.

Exposição Estadual de 1901. À direita, a fachada lateral da Escola de Engenharia

  Política
  Rodolpho desenvolveu intensa atividade política, sendo personagem do mais alto relevo do Partido Republicano, como um dos seus fundadores e organizadores, em Santa Maria. Junto com outros cinco correligionários, fundou o Clube Republicano e, a seguir organizou o Partido na cidade, cujas reuniões eram realizadas em sua própria casa.
  Em Porto Alegre, continuou sua atividade partidária, estreitando amizade com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros.
Augusto Laydner
   Augusto Laydner, o terceiro filho de Rodolpho, tornou-se também um membro ativo do Partido Republicano. Nascido em Santa Maria, em 28.1.1889, ele começou como caixeiro-viajante nos difíceis tempos em que percorria as rústicas estradas do interior em cavalgaduras e carroças. 
   Estabeleceu-se em Porto Alegre com casa comercial no ramo de ferragens e outras mercadorias, as Casas Laydner, na Rua Marechal Floriano. Transferiu residência para a Ilha da Pintada onde, em sociedade com Oscar Schmitt, ampliou o serviço de navegação entre as ilhas e a capital, com modernas lanchas a gasolina. Casou com Santa Santos, professora.
   Em minha infância, lembro da presença de seu filho mais velho, Werther, em nossa casa, em visitas à sua tia-avó Lydia Laydner Brenner, minha avó materna.


  As capas da Constituição Estadual de 1891
  Há muitos anos, conduzido pelo saudoso colega o arquiteto José Albano Volkmer, bisneto de João David Laydner, visitei o Museu Júlio de Castilhos para conhecer a capa de prata da Constituição do Estado do Rio Grande do Sul de 1891. Volkmer informou-me que a peça, medindo cerca de 25x35 cm e contendo a inscrição  Ao dr. Julio de Castilhos a Brigada Militar, fora elaborada por Rodolpho Laydner. Fotografei então a peça de prata com uma pequena câmara analógica, sem bos condições de iluminação, resultando uma foto de má qualidade.
   Em 2005, voltei ao museu para obter uma foto melhor, mas não mais encontrei a capa de prata, nem obtive qualquer informação dos funcionários.
   Rodolpho deve tê-la feito nos primeiros anos de sua empresa em Porto Alegre, pois Júlio de Castilhos faleceu em 24.10.1903.

   Recentemente, Guilherme Souto, trineto de Rodolpho Laydner, trouxe-me a informação de que uma outra capa da Constituição Estadual de 1891, que pertencera a Borges de Medeiros, fora confeccionada em ouro por seu trisavô. Fotos dessa peça foram publicadas no livro O Parlamento Gaúcho - da Província de São Pedro ao século XXI, 2013, com a legenda: “Este exemplar, com capa de ouro, pertenceu a Borges de Medeiros, que a mandou confeccionar para si”. Dificilmente o Presidente do Estado do R.G.S. confiaria o trabalho a outro ourives que não fosse seu amigo e correligionário Rodolpho Laydner.
    A valiosa peça pertence ao acervo cultural da Assembleia Legislativa e até poucos anos atrás esteve exposta com a identificação: “Autor: Rodolpho Niederauer Laydner”.
    Acrescente-se que o engenheiro Amadeu Laydner, no artigo Os ourives, publicado no Correio do Povo, em 28.7.1974, afirmou:
[...] Rodolfo, igualmente ourives, viera para Porto Alegre e aqui faleceu em 1938, tendo deixado grande nome como profissional. O original da Constituição Estadual de 14 de julho de 1891 está capeado por um trabalho em prata e ouro por ele executado.
    Amadeu Laydner era neto de Jacob Luiz Laydner Sobrinho, que fora aprendiz de Jacob Luiz Laydner e se estabelecera em Alegrete. Amadeu morava em Porto Alegre, na Rua Duque de Caxias, 1243, apartamento 901. Certamente ele conhecera a Constituição “capeada por um trabalho em prata e ouro” e não se referia à peça do Museu Júlio de Castilhos, quase em frente ao seu endereço, feita somente de prata.
    Rodolpho Niederauer Laydner faleceu em Porto Alegre, em 11 de junho de 1938, com 81 anos de idade.

Fontes:
Arquivo pessoal.
Arquivo da Cúria Metropolitana de Santa Maria. Livro 5 de Batismos, fl. 25, da Igreja Matriz de Santa Maria.
LAYDNER, Amadeu. Os ourives. Correio do Povo, Porto Alegre, 28.7.1974.
SOARES, Débora Dornsbach e ERPEN, Juliana (org.). O Parlamento Gaúcho - da Província de São Pedro ao século XXI, Porto Alegre: Assembleia Legislativa do R. G. do Sul, 2013.
TIMM, Octacilio B. e GONZALES, Eugênio (org. e edit.). Album illustrado do Partido Republicano Castilhista - RGS. Porto Alegre: Livraria Selbach, 1934.
Correio do Povo, Porto Alegre, edição de quarta-feira, 3.6.1908..


sábado, 21 de junho de 2014

O hino do Avenida Tênis Clube

No ano de 1933, fatos importantes ocorreram no Avenida Tênis Clube. Houve a eleição da primeira rainha, foi composto o hino, realizado um festival beneficente e lançado o A.T.C., o primeiro jornal do clube. Na metade do ano, meu pai, Ennio Brenner, tornou-se campeão.

    O Avenida Tênis Clube teve seu primeiro e único hino, composto em 1933, com música de Horst Walter Puhlmann e letra de Lamartine Souza.
    O médico Lamartine Souza, campeão do clube, desde 1920, era então vice-presidente e atuava, desde 1922, na Diretoria Executiva e no Conselho Fiscal. Era homem de vasta formação cultural, especialmente no âmbito da literatura.
Horst Walter Puhlmann
    Horst Puhlmann nasceu em Santa Maria, em 1912, filho de Alfredo Puhlmann, natural de Santa Cruz e aqui estabelecido, desde 1911, após formar-se em odontologia, em Berlim.
    Horst começou a jogar tênis, em meados de 1930,  no Santa Maria Tênis Clube, na Rua Silva Jardim, entre as ruas Serafim Vallandro e Duque de Caxias. Esse clube surgiu de uma dissidência no Avenida Tênis Clube, que levou um importante grupo de sócios a se demitirem e fundarem a nova associação, em 9.11.1929. Entre eles, Mimi Philbert, vice-presidente, Ginette Turi, principal tenista, e Aracy Azevedo, uma das fundadoras e ex-presidente do A.T.C.
Dr. Lamartine Souza,
autor da letra.
    Na época, o A.T.C. teve suas atividades esportivas suspensas por mais de um ano, com a desocupação da Praça do Mercado (Saturnino de Brito), imposta pela Intendência Municipal, devido às obras de saneamento básico. Em 21.6.1931, inaugurou novas instalações na Praça da República, com três quadras, onde o jogo voltou a ser intensamente praticado.
    Três meses depois, em 20.9.1931, o Avenida Tênis Clube recebeu em sua sede o Santa Maria Tênis Clube, para um torneio, uma iniciativa do clube anfitrião para estabelecer boas relações com o coirmão local.
    O jovem Horst Puhlmann, com 19 anos, era o principal tenista do clube visitante e foi a maior revelação do torneio. Jogou contra Ennio Brenner, 24, então vice-campeão do A.T.C., perdendo por 6x1, 3x6 e 6x1.
Referindo-se ao torneio, o Diario do Interior, em 29.9.1931, destacou o desempenho de Horst.
    Desejando ingressar no A.T.C. e sendo proposto para associar-se, Horst já jogava nas quadras do clube em agosto de 1932, sendo admitido como sócio, na sessão de diretoria, em 3.9.1932.
 
Sob o pseudônimo de Drive, o cronista do tênis comemorou a aquisição de Horst, no Diario do Interior, em 11.8.1932.
    Horst Puhlmann, contabilista de profissão, era um habilidoso pianista. Não tinha conhecimentos teóricos de música, mas com uma reconhecida aptidão natural, "tocava de ouvido", com muito talento. Na mesma época em que ele se tornou sócio do A.T.C., o clube adquiriu um piano no qual Horst revelava suas habilidades musicais, animando as frequentes reuniões realizadas no pavilhão social. Em 1933, o entusiasmo geral para a realização do festival artístico em beneficio do clube, quando seria coroada sua rainha, animou o jovem músico a compor o hino do A.T.C.
     Em 19 de maio, sábado, Horst tocou, no piano da sede, o hino que havia composto, sendo muito aplaudido pelo grande número de ateceanos presentes. Foi então anunciado que a letra seria escrita por Lamartine Souza. 
Partitura do Hino do A.T.C., com a observação "incompleto".
    Na edição do Diario do Interior de terça-feira seguinte, o cronista que assinava “Fundo” atribui uma “capacidade prefulgente” a Horst. Comenta que em pouco tempo o “novel compositor escreveu uma linda ‘marcha de guerra’ para o A.T.C.” acreditando que ele se inspirara “no seu próprio estilo tenístico violento, para depois, na defensiva, entrar numa fase mais calma.”
    O cronista revela, a seguir, a importante participação de Herta Puhlmann, irmã de Horst.
Diario do Interior, terça-feira, 23.5.1933, 1ª página.
   Quando encontrei a letra do hino, publicada no Diario do Interior, na edição de 1.7.33, entrei em contato com a Prof.ª Herta, na esperança de que ela tivesse a partitura. Contou-me então que Horst compusera o hino e, como ele não conhecia a técnica, ela escrevera na pauta as notas musicais. Herta Thea Puhlmann era professora de inglês, no Colégio Centenário, onde seria diretora, de 1966 a 1980. Em sua homenagem, o prédio do Colégio Centenário destinado à pré-escola foi denominado, em 1972, “Edifício Herta Puhlmann Chagas. Ela era também apreciada pianista, tendo se apresentado em concertos, na cidade.

    Na edição de 1.7.1933, sábado, o Diario do Interior publicou a letra do hino do A.T.C. que seria "cantado em seu próximo festival, por um grupo de moças da nossa sociedade."
 Que prazer freqüentar o “Avenida”
Pelas tardes bonitas de sol,
Exaltando a alegria da vida,
Num ambiente de elite e de escol.

Há encanto que não se descreve,
Que impressiona, mas que não se diz
Numa frase sutil, fina, breve,
Ou num drive em que se foi feliz.
 Coro:
Lá no “Avenida” tudo é lindo;
Nosso clube é sem rival.
Vamos pra frente, alegres, rindo,
Porque a vitória é sempre do mais jovial.

A raquete é sinal de lealdade,
De nobreza, de ritmo, de tom.
Faz pensar numa felicidade,
Na ventura de ser belo e bom.

Branca e azul é nossa bandeira,
Pavilhão todo cheio de glórias.
Branca e azul, tremulando altaneira,
Com orgulho de nossas vitórias.

Edith Stellfeld  (E) e Herta
Puhlmann, na inauguração
da quadra do Colégio Centenário.

_______
    Em 1º de setembro de 2002, domingo, Herta me telefonou, informando que achara a partitura. No dia seguinte, eu a visitei em seu apartamento nº 403, no Edificio Pimenta, à Rua Dr. Bozano, 729, levando a letra do hino, escrita por Lamartine Souza. Ela então sentou-se ao piano e tocou o hino do A.T.C. composto por seu irmão, enquanto ambos cantamos a letra. Música e letra se ajustaram na primeira estrofe, mas não na sequência.
    Em 11.9.1935, o Colégio Centenário inaugurou uma quadra de tênis onde Herta Puhlmann também passou a jogar. Entre as tenistas do Centenário estava a aluna interna Edith Stellfeld, de Livramento, com quem Horst Puhlmann casou, em 1940.
    O hino foi apresentado ao público no festival de coroação da rainha e em benefício do Avenida Tênis Clube, no Cine Independência, cantado por um coro de ateceanos, em 4.7.1933.
________________________________
Fontes:
Livro nº1 de atas do ATC.
Diario do Interior, S. Maria, hemerotecas do Arquivo Histórico Municipal e da Casa de Memória Edmundo Cardoso.
Acervo José Antonio Brenner.
Acervo família Puhlmann.

domingo, 8 de junho de 2014

Norma Seibel – A 1ª Rainha do Tênis

    Norma nasceu em Santa Maria, em 6 de maio de 1913, filha de Ernesto Seibel e Rosalina Peuckert Seibel. O pai, natural de Santa Cruz do Sul, estabeleceu-se como fabricante de móveis, em Santa Maria, onde casou com a santa-mariense Rosalina Peuckert, filha do comerciante Celestino Peuckert. A residência da família ficava na Rua 7 de Setembro, esquina Borges do Canto.
     Norma estudou em Porto Alegre, como aluna interna, desde os nove anos de idade, na escola feminina alemã Marienschule, dirigida pelas irmãs franciscanas. A Marienschule (Escola Santa Maria), criada em 1914, transformou-se na Escola Nossa Senhora Medianeira, em 1938. Era vinculada à Comunidade da Paróquia São José e situava-se à direita da igreja, na então Rua São Rafael, hoje Av. Alberto Bins, onde está o Centro de Eventos São Rafael.
Norma, aos 14 anos, no pátio da Marienschule.
Ao fundo, a Igreja São José.
    Muito cedo, talvez com seis ou sete anos, Norma iniciou seu aprendizado em violino, em Santa Maria, com professor particular. No internato, em Porto Alegre, ela continuou a praticar o manejo do instrumento e, em 1925, com 11 anos, prestou exame de admissão no Instituto de Bellas Artes do Rio Grande do Sul (atual Instituto de Artes da UFRGS). Foi então classificada para o 3º ano de Violino e 1º ano de Teoria e Solfejo.
    Durante o seu período escolar na Marienschule, ela estudou música, durante sete anos, formando-se em Teoria e Solfejo, em 1927.  Em 1928, concluiu o 6º ano de Violino, aprovada com distinção, grau 10, que lhe valeu um diploma de Menção Honrosa. Após ter prestado exames finais, em 30.11.1931, Norma Seibel concluiu o 2º ano de História da Música e o 9º ano de Violino, sendo “aprovada plenamente com grau 9” conforme consta em seu diploma.

    Em 23.12.1930, foi fundado o Centro de Cultura Artística de Santa Maria-CCA, que 10 dias depois teve aclamada sua diretoria: presidente, Luiz Schmidt Filho; vice-presidente, João Belém (autores da iniciativa); orador, João Bonuma; secretário, Fernando do Ó; tesoureiro, Garibaldi Poggetti. Esse último era diretor do Instituto Musical Araújo Vianna, na Rua Floriano Peixoto esquina Marquês de Maricá,[1] sede do CCA. O objetivo era desenvolver o conhecimento e o apreço pelas artes promovendo reuniões quinzenais com apresentações de música, pintura, escultura e literatura.
     Antes de se formar, Norma já participava de concertos em Santa Maria. Na terceira reunião do CCA, em 11.2.1931, a jovem violinista de 17 anos apresentou-se, segundo o crítico do Diario do Interior, “além da expectativa geral”, executando o programa, “com muita segurança e técnica”.
Já formada, Norma Seibel participou da 12ª sessão de arte do CCA, em março de 1932. Conforme o mesmo jornal, ela mereceu os maiores elogios da platéia, quando “em bela reafirmação de um excepcional talento artístico, sobejamente demonstrado no manejo mágico do arco, executou Rêverie de Schumann e Rapsódia Húngara de Hauser.”[2]
Trechos do texto de Fernando do Ó sobre Norma Seibel, em C.C.A.,
revista do Centro de Cultura Artística, edição de 25.12.1932.

    Notícias do Diario do Interior revelam que algumas reuniões seguintes foram organizadas “com admirável senso artístico por Norma Seibel, talentosa violinista patrícia.” O jornal comenta que na reunião de 25.5.1932, “Norma Seibel, com aquele espírito fino de artista, revelado em outras ocasiões, presidiu, com admirável senso artístico, a distribuição dos números  da noitada de arte. Pena que, por um requinte de modéstia, não quisesse tomar parte [...] Violinista de méritos incontestáveis, a jovem artista patrícia é uma afirmação magnífica de talento realizador.”
Ao violino. Foto publicada em C.C.A. e
em A.T.C., ed. 1.11.1933. Photogr. Koehn.
    Mas na reunião do CCA, em 29.6.32, Norma Seibel executou Romanza de Max Reger, [3] e Zingaresca, de Pablo de Sarasate, na qual esteve admirável. O Diario do Interior destacou a “arcada firme, espírito que sente o trabalho que interpreta, desvendando a alma do compositor nas suas nuanças todas – Norma portou-se como era de se esperar: magistralmente!”
    Quando foi eleita Rainha do Tênis, havia mais de um ano que ela lecionava violino às alunas da Escola de Artes e Ofícios Santa Teresinha,[4] da Cooperativa dos ferroviários.
    Norma foi professora naquela escola feminina, de 15.3.1932 a 1º.3.1936, quando pediu demissão, certamente, em razão do casamento, que seria celebrado três meses depois.
    Casou em 30.5.1936, sábado, com Octavio Silvestre de Oliveira, natural de Coimbra, Portugal, que exercia a direção contábil da citada Cooperativa. O casal teve a filha Maria Thereza, nascida em 7.7.1937.

    Em novembro de 1938, como parte do programa comemorativo dos 25 anos da Cooperativa dos ferroviários, Norma apresentou-se na Associação dos Empregados da Viação Férrea, acompanhada ao piano por sua irmã Ilma Seibel. 

     Norma Seibel de Oliveira faleceu em 28 de maio de 2009, três semanas após completar 96 anos de idade. Deixou quatro netos: Denise da Silveira Seibel Cabral, residente em Curitiba; o médico veterinário Octavio Oliveira da Silveira, o engenheiro civil Joel Silveira Filho, ambos residentes em Santa Maria e tenistas do A.T.C., e Liana Silveira Cassol, residente em Porto Alegre. Liana foi Rainha de Festas do A.T.C., em 1980, ocasião em que Norma recebeu uma placa do clube, alusiva ao primeiro reinado que ela exerceu no A.T.C.

    Norma conservou zelosamente seu violino no qual tocava, em reuniões familiares, acompanhada ao piano por sua filha Maria Thereza.
_________________________________________
Fontes:
Diario do Interior - Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal.
C.C.A. - Hemeroteca da Casa de Memória Edmundo Cardoso.
Acervo pessoal de Octavio Oliveira da Silveira.




[1] Pela Lei nº 1209/65, de 6.9.1965, o Prefeito Francisco Álvares Pereira mudou a denominação para Rua Dr. Astrogildo Cesar de Azevedo.
[2] Michael (Miska) Hauser (ê 1822  Pressburg, † 1887  Viena ), virtuose do violino e compositor austro-húngaro .
[3] Romanze para violino e piano, de Max Reger - Johann Baptist Joseph Maximilian Reger (1873-1916) foi um compositor, organista, pianista e maestro alemão.
[4] O edifício hoje abriga o Colégio Estadual Manoel Ribas.

terça-feira, 20 de maio de 2014

A.T.C. 1933 – A primeira rainha

No ano de 1933, fatos importantes ocorreram no Avenida Tênis Clube. Houve a eleição da primeira rainha, foi composto o hino, realizado um festival beneficente e lançado o A.T.C., o primeiro jornal do clube. Na metade do ano, meu pai, Ennio Brenner, tornou-se campeão.

   Eleição da Rainha
   Na sessão de diretoria do Avenida Tênis Clube, em 10.3.1933, Ernesto Lang, tesoureiro, apresentou a proposta que partira de vários sócios de que fosse realizada uma eleição entre as jovens associadas, para escolha da rainha do clube. A proposta foi aceita com entusiasmo.
   O Avenida Tênis Clube vivia uma época de intensa atividade esportiva e social. Eram frequentes os torneios de tênis com clubes de Cachoeira, São Gabriel, Cacequi, Cruz Alta. Muitas jovens santa-marienses praticavam o tênis, nas três quadras da Praça da República,[1] e participavam das reuniões sociais no pequeno pavilhão que servia de sede.
   O pavilhão social, construído em 1923, na sede então instalada na Praça do Mercado (hoje Saturnino de Brito),[2] fora transportado para a nova sede da Praça da República, em junho de 1930, e fora ampliado em 1932.
O A.T.C. na Praça da República, no local hoje ocupado pelo Corpo de Bombeiros.
Foto ~1938 - acervo Casa de Mem. Edmundo Cardoso - CMEC

   A eleição foi organizada, e foram produzidas cédulas eleitorais para votação. Não foi estabelecida a inscrição de candidatas. Algumas jovens atecianas passaram a ser votadas, no início de maio, quando os “cabos eleitorais” puseram-se em atividade. Os votos eram depositados em uma urna, na Casa Lang,[3] empresa do diretor esportivo do clube, Carlos Oscar Lang, na Primeira Quadra da Rua Dr. Bozano, 1228, onde hoje está uma loja da rede Colombo.
   A eleição da primeira rainha do tênis muito movimentou o quadro social.
   Em 6 de maio daquele ano, sábado, o Avenida Tênis Clube iniciou as noitadas de inverno, em sua sede, na Praça da República.
Publicado no Diario do Interior, sexta-feira, 5.5.1933.
  
   Na alegre noite dançante, houve intenso entusiasmo para a eleição da Rainha. Os cabos eleitorais empenhavam-se, cabalando votos para suas candidatas.
Norma Seibel - 1934
acervo Octavio Silveira
   Na primeira apuração, em 12 de maio,  Norma Seibel já tomou a dianteira, disputando-a com Agueda Brazzale, da qual se distanciou nas apurações seguintes. As demais eram Elisa Pereira, Lucia Izaguirre, Amélia Pereira, Maria Viola e Clelia Nieves.    As candidatas praticavam o tênis e eram assíduas frequentadoras das quadras e das reuniões sociais do A.T.C. Em junho de 1933, Elisa Pereira, Amelia Pereira, Lucia Izaguirre e Clelia Nieves estavam classificadas na primeira divisão feminina, Maria Viola, na segunda divisão e Agueda Brazzale, na terceira divisão.
   Além de Norma Seibel, as mais votadas foram:
Elisa Pereira - 2.9.1934 - acervo J.A.Brenner
Elisa Pereira – Sobre ela, foi escrito na edição de 25.1.1934 do jornal A.T.C.:
Formosa e meiga. Loira, esbelta, de olhos azuis. Entusiasta emérita do tênis, do nosso clube, do nosso jornal. Se é certo que temos todos, fisicamente, um traço característico, não é menos exato que cada alma  possui um predicado inconfundível: o de Elisa Pereira é a meiguice. Joga tênis como encara a vida: com um eterno sorriso otimista, bom e eminentemente contagioso. Ternura natural e espontânea, sem artificialismo exagerado e ridículo. Riso franco, sincero, permanente, sem ressaibo de ceticismo, sem amargor de dúvida.
Se alguém a ofendesse, riria; é com certas árvores que perfumam o machado que as maltrata.
Agueda Brazzale – 19 anos. Nasceu em Santa Maria, em 8.11.1013, filha de João Baptista Brazzale, dono da Pharmacia Moderna e responsável pela Pharmacia da Cooperativa dos ferroviários. 
   Agueda formou-se professora na Escola 
Agueda Brazzale. Foto na revista CCA,
em 25.12.1932. acervo CMEC
Complementar e tornou-se uma das mais ilustres educadoras de Santa Maria. Casou, em 1937, com o gabrielense José João Leal, que conheceu nos torneios de tênis entre o A.T.C. e o Brasil Tênis Clube, de São Gabriel.
Em A.T.C., edição de 2.13.1033 foi escrito:
“A natureza me fez bela, a inteligência deu-ma Deus, e da graça, o dom divino, as fadas me fizeram rica. Sou querida de todos: dos moços, que olham no fundo dos meus olhos, e dos velhos, que enxergam dentro do meu coração.”
Ele poderia dizer isso e não teria dito tudo. Daquele buquê mimoso de rosas lindas que são do Avenida o encanto maior, ela é uma das mais belas, e sem o espinho da vaidade. De Agueda Brazzale o A.T.C. não disse tudo, mas todos sabem que poderia ter dito muito mais.
Lucia Izaguirre. Foto no jornal A.T.C.
em 17.3.1934
Lucia Izaguirre – 17 ou 18 anos. Nasceu em Livramento, filha de Antonio Izaguirre, eng. mecânico da Viação Férrea, e Adalbertina, conhecida por Mindoca Izaguirre.
Eis como o A.T.C. a descreveu, na edição de 17. 3.1934:
O soberbo contraste dos magníficos olhos escuros com a claridade rutilante dos cabelos de ouro lembra-nos um sorriso entre lágrimas ou a alegria de um raio de sol, numa manhã sombria de inverno e faz que, daquele ramalhete mimoso que dá encanto às quadras do Avenida, Lucia Izaguirre seja, senão o mais belo, pelo menos o mais precioso ornamento.
O porte fidalgo, as maneiras delicadas e distintas, a doçura do seu convívio, fazem-na querida de todos atecianos. Nós, os da velha guarda, sentimos saudade do “nosso tempo”, quando nos fitam aqueles doces olhos de veludo.
Apaixonada das letras, a sua colaboração nas colunas de nosso jornal é o melhor testemunho de sua fina cultura.

A eleição encerrou-se em 10 de junho, e no dia 18 o Diario do Interior publicou o resultado final:

   Foi eleita Norma Seibel, com 45% dos votos e larga vantagem sobre outras três candidatas mais votadas: Elisa Pereira, Agueda Brazzale e Lucia Izaguirre. No dia 17 de junho, sábado, uma comissão do Avenida Tênis Clube visitou Norma Seibel em sua residência para participar o resultado da eleição e convidar para o próximo Festival do Tênis, quando seria feita, solenemente, sua coroação como soberana do clube.
   Na edição do Diario do Interior de 18 de junho, domingo, uma cronista do A.T.C., sob o pseudônimo de “Sinhasinha”, em sua crônica intitulada “Foi eleita a Rainha!” referia-se a um empenhado cabo eleitoral de outra candidata, possivelmente Agueda Brazzale:

   E a cronista finalizava, proclamando



[1] No tempo do Império, chamava-se Praça da Constituição. Com a proclamação da República, foi denominada Praça 15 de Novembro e, mais tarde, Praça da República. Em 1963, foi rebatizada Praça Tenente João Pedro Menna Barreto, hoje popularmente chamada “Praça dos Bombeiros”.
[2] Praça do Mercado era o nome popular da área, destinada a um mercado público que não foi construído. Não teve qualquer tratamento paisagístico antes de o A.T.C. ali se instalar.
[3] Tradicional empresa familiar, no ramo de ferragens, materiais de construção e bazar, fundada em 1928 e fechada em 1995.
_______________________________
Fontes:
Arquivo Histórico Municipal/Hemeroteca - Diario do Interior.
A.T.C. - Orgão do Avenida Tennis Club -1933
Casa de Memória Edmundo Cardoso/Fototeca e hemeroteca.

sábado, 10 de maio de 2014

Feira do Livro de Santa Maria/2014  Patrimônio cultural da cidade
Uma história de 52 anos

   A  Feira do Livro de Santa Maria, em sua 41ª edição, foi aberta no dia 26 de abril, sábado, na Praça Saldanha Marinho, e foi encerrada em 11 de maio, domingo, mostrando, mais uma vez, a qualidade da Comissão Organizadora e equipe de trabalho, nesta edição sob a diligente coordenação geral da Secr. de Cultura Marília Chartune Teixeira.
   É a maior feira literária do interior do Rio Grande do Sul, que, a cada ano, cresce em importância, qualidade e dimensão.
   Primeira edição – 1962
   O evento teve sua primeira edição em 1962, organizado pelo governo municipal, com a chancela da Câmara Brasileira do Livro-Seção RS, consequente da iniciativa do vereador Sivo Duprat Barreto.
Trecho de notícia, em A Razão, 8.5.1962
Pelotas realizara sua 1ª Feira, em 1960.
 A comissão organizadora, presidida pelo prefeito Miguel Sevi Viero, era composta por Sivo Barreto, prof. Jaime Shmulerg, ver. Hélio Helbert dos Santos, Secr. de Administração Fernando Adão Schmidt e Pedro Freire Jr., então atuando no Teatro Universitário e Teatro de Arena.
   A Prefeitura instalou treze estandes, na Praça Saldanha Marinho, destinados às livrarias locais Comercial, do Globo e Evangélica, e às editoras e livrarias José Olympio, Francisco Alves, Globo, Nacional, Delta, Brasiliense, Labor, Leonardo da Vinci, Flamboyant, Sulina e Baibich.
O prefeito Miguel Sevi Viero abre a 1ª Feira do Livro de Santa Maria, em 25.5.1962, anunciada em manchete, no dia seguinte. À direita, a primeira-dama, Eugenia Viero, e o ex-prefeito Vidal Dania.


   A abertura, programada para 17 de maio, como principal comemoração do 104º aniversário de emancipação política da cidade, foi adiada para o dia 25, quando o prefeito Miguel Viero descerrou a fita simbólica da Primeira Feira do Livro de Santa Maria.
   Sivo Duprat Barreto
Dr. Sivo Barreto [acervo Dr. Luiz Barreto]
   O rosariense Sivo Barreto, formado em 1928,  pela Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, hoje da UFRGS, iniciou sua vida profissional e política em Cacequi. Mudou-se para Santa Maria, onde foi eleito suplente de vereador, em 1955, e assumiu o mandato no ano seguinte, sendo eleito vereador para a legislatura 1960-63.
   Desde 1959, insistentemente defendeu, na tribuna da Câmara, com sua conhecida eloquência, a criação de uma feira do livro em Santa Maria.      Como resultado de sua persistência, a primeira Feira do Livro de Santa Maria foi organizada em 1962.
   O idealizador e obstinado batalhador para a realização desse primeiro evento literário, em nossa cidade, e membro de sua organização foi escolhido orador na solenidade de abertura da I Feira do Livro em Santa Maria. Lembrou em seu discurso que, “se ouvida fosse sua pregação, desde o início, Santa Maria, que se mostrara pioneira interiorana em tantos empreendimentos de ordem cultural, o teria sido também na Feira do Livro.”
Dr. Sivo Duprat Barreto,
quando eleito vereador, em 1959.
   Se houvesse, então, o patronato do evento, certamente Sivo Duprat Barreto teria sido o Patrono da I Feira do Livro de Santa Maria. Seu nome deve ser lembrado e uma homenagem lhe é devida. 

   A II Feira do Livro de Santa Maria, em maio de 1963, foi aberta pelo governador Ildo Meneghetti. Em dezembro daquele ano, o prefeito Miguel Sevi Viero promulgou a Lei nº 1133, aprovada pela Câmara de Vereadores, que oficializava a Feira do Livro de Santa Maria. Mas nos anos de 1964 e seguintes a Feira não se realizou certamente devido ao estado de exceção, entretanto, em 1967, houve a Feira Internacional do Livro, promovida pela UFSM.
   1º Patrono: Felippe D’Oliveira
Herma de Felippe D'Oliveira.
Assinatura de Victor Brecheret, 
no lado direito da escultura.
   A III Feira do Livro de Santa Maria foi aberta em 27.4.1968, quando o evento teve sua primeira sessão de autógrafos e seu primeiro patrono.
   Essa homenagem foi prestada ao santa-mariense Felippe Daudt de Oliveira, poeta, jornalista, farmacêutico, empresário, esportista e escritor, nascido em 23.8.1890.
   Tendo se envolvido na Revolução Constitucionalista de 1932, exilou-se na França, onde faleceu aos 42 anos, em acidente de carro. 
   Foi homenageado com a denominação de ruas em Santa Maria, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, onde também deu nome a uma escola estadual de 1º grau. É patrono da cadeira 37 da Academia Rio-Grandense de Letras e do Concurso Literário Felippe D’Oliveira, realizado em Santa Maria, por 36 edições.
   Na Praça Saldanha Marinho, em Santa Maria, onde se realizam as feiras do livro, foi erguida a herma de Felippe D'Oliveira, uma valiosa obra do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret, um dos mais importantes do país, introdutor do modernismo na escultura brasileira.

  
A herma de Felippe D'Oliveira, 1º patrono de Feira do Livro de Santa Maria, 
jaz ignorada em um canteiro da Praça Saldanha Marinho.

   As retomadas
 Nos quatro anos seguintes, a Feira não se realizou e somente foi retomada em 1973, por louvável e valiosa iniciativa dos estudantes do Curso de Comunicação Social da UFSM. Foi denominada, por três edições, Feira Universitária do Livro. Seguiu então de forma contínua por 17 anos. Não sendo realizada nos anos 1990 e de 1992 a 94, foi novamente retomada, em 1995, por promoção, junto aos seus alunos, da prof.ª Eugenia Mariano da Rocha Barichello, sob cujo patronato foi realizada a edição de 2013.
1973 - I Feira Universitária do Livro. Ao fundo, o antigo edif. do Banrisul, demolido para dar lugar ao atual, inaugurado em 9.1.1983. [acervo DAG/UFSM]

   A Feira foi aberta em 2.10.1995, organizada pela FACOS/UFSM, Editora/UFSM, Prefeitura, CESMA e SESI, que se uniram para consolidá-la como um dos maiores acontecimentos culturais de Santa Maria. Houve sessões de autógrafos de vários autores, entre eles Luiz Fernando Veríssimo, Prado Veppo, Tânia Lopes, Celso Gutfreind, Juremir Machado da Silva, Vitor Biasoli, Humberto Zanatta e Ricardo Seitenfus. Apresentaram-se grupos de dança, música e teatro, e exposições foram organizadas. Tomou então a denominação de 23ª Feira do Livro
   Segundo Télcio Brezolin, gerente da CESMA, a comissão organizadora de então numerou a edição de 1995 a partir da I Feira Universitária do Livro, em 1973, computando os anos decorridos, inclusive aqueles em que o evento não se realizou. Por coincidência, a feira de 1995 era a também 23ª considerando todas as que foram realizadas, desde a primeira edição, em 1962.
   Assim, desde o início, houve 12 anos, em diferentes épocas, em que a cidade não teve feira do livro. Mas é justo e necessário que se contemple todas as feiras aqui realizadas, quaisquer que tenham sido suas denominações e seus promotores, o que numera a edição de 2014 como a 41ª Feira do Livro de Santa Maria.
   
   Marca
 Em 1998, a Feira adotou sua marca permanente de apropriada significação. De linhas singelas como devem ser os símbolos visuais, a marca mostra um livro aberto composto por figuras de pássaros em voo. A leitura literária, assim com a histórica, científica ou informativa é um meio de o leitor alçar voos, percebendo novas realidades, ampliando o conhecimento. Contribui para o seu crescimento cultural e promove suas ações positivas e críticas na sociedade.
   A marca da Feira foi uma inspirada criação da designer Creici Redin Brixner, quando aluna/orientanda do Prof. Máucio Rodrigues, na disciplina de Projeto de Identidade Visual do Curso de Desenho Industrial/UFSM, que tantas e qualificadas contribuições tem dado a instituições locais.

    Homenageados da edição 2014
   A Comissão Organizadora da Feira prestou homenagem póstuma ao poeta Antonio Carlos Machado, laureado autor de textos em verso de premiadas músicas gaúchas.
   A educadora homenageada, Viviane Marconato, é professora na Escola de Ensino Fundamental Pão dos Pobres Santa Antônio e na Escola de Educação Infantil Padre Orlando. Desenvolve necessários e valiosos projetos literários com seus alunos.

Prof.ª Viviane Marconato
Homenageada
   Fui escolhido Patrono da Feira do Livro de Santa Maria, homenagem que considero da maior relevância no âmbito dos eventos culturais da cidade. Expresso minha mais profunda gratidão à Comissão Organizadora da Feira, composta por representantes da Câmara do Livro, Prefeitura Municipal (secretarias da Cultura, Educação, Turismo e Eventos), Curso de Comunicação Social/UFSM, CESMA, UNIFRA (Cursos de Publicidade e Propaganda e de Jornalismo), 8ª Coordenadoria Regional de Educação, SESI-RS e SESC-RS.
   Sou grato aos integrantes desse qualificado colegiado, por sua generosidade ao me atribuírem tal mérito, pelo reconhecimento ao trabalho que venho realizando sobre a história de Santa Maria e da imigração alemã, temas de minha permanente pesquisa.
   Fui e continuo sendo movido pelo desejo de saber quem eu sou e porque estou aqui.  Sou o resultado dos feitos e fatos da vida de meus ancestrais, nos cenários históricos do desenvolvimento da cidade, onde meus bisavós se estabeleceram, há mais de 150 anos, na época da emancipação política.
   Santa Maria é a minha cidade, onde nasceram meus avós, onde nasceram meus pais e onde eu nasci, na mesma casa onde moro, na segunda quadra da Rua Dr. Bozano, construída por meu bisavô, há 161 anos.
   A vida traçou meus caminhos, e eu andei por eles, em bons e maus momentos, mas sou grato por tudo o que vivi, pois esses caminhos, ainda que longos e tortuosos, me trouxeram à posição de Patrono da mais importante Feira do Livro do interior do Estado. Um estado que realiza, anualmente, 130 eventos literários, entre feiras, festivais e jornadas, bem à frente de São Paulo (27) e Rio (24). Isso engrandece ainda mais a Feira do Livro de Santa Maria e engrandece a mim, como santa-mariense e como patrono.

Fontes:
A Razão - Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria.
BARICHELLO, Eugenia Mariano da Rocha. História da Feira do Livro de Santa Maria. FACOS/UFSM, 2013.
Itaú Cultural: 
http://conexoesitaucultural.org.br/wp-content/uploads/2013/08/Felipe-Lindoso_Feiras-de-Livros.pdf

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Coronel Niederauer - 187 anos

    Neste  dia 4 de abril, celebramos os 187 anos do nascimento de João Niederauer Sobrinho, em solenidade militar comemorativa, pela 6ª Brigada de Infantaria Blindada, a “Brigada Niederauer”.
João Niederauer Sobr., quando capitão,
com cerca de 30 anos.

    Nascido na Colônia Alemã de Três Forquilhas, filho de imigrantes alemães, foi batizado como Johannes, nome de seu padrinho e tio, por isso passou a ser chamado João Niederauer Sobrinho.
    Sua família mudou-se para Santa Maria, em 1840, e quatro anos depois ele próprio, que  ficara em São Leopoldo e Porto Alegre, em estudo e trabalho.
    Depois de incursões militares na Argentina e no Uruguai, como oficial da Guarda Nacional, Niederauer seguiu para a Guerra do Paraguai, como tenente-coronel comandante do 7º Corpo de Cavalaria, organizado por ele, em Santa Maria.
    Faleceu após a vitória, na Batalha do Avaí, em 13.12.1868, na juventude de seus 41 anos.
    Em sua honra foi erguido um monumento, em Santa Maria, o mais antigo e mais importante da cidade, inaugurado em 10.9.1922.
    Mais informações em:

    A última vez que houve comemoração pública em honra do herói foi durante o comando do  Gen. Luis Alfredo Reis Jeffe, em 2002. Depois, não foi mais possível, devido ao estado de abandono e degradação daquele logradouro. O prefeito Cezar Schirmer teve a coragem e determinação de recuperá-lo, com a remoção do comércio informal e reforma da avenida.
    Solicitei então que o monumento fosse elevado, para lhe dar o devido destaque, na paisagem urbana. Os ornatos de bronze fundidos em Florença, junto com a herma, haviam sido furtados por vândalos.

O monumento, em posição mais elevada, ganhou destaque na paisagem urbana.

    Com a valiosa colaboração do Gen. Décio Schons, comandante da “Brigada Niederauer”, foram produzidas réplicas, em latão fundido, no Arsenal do Exército, em General Câmara.
A coroa de folhas de louro e acanto foi furtada, há 16 meses.

    Lamentavelmente, a coroa de folhas de louro e acanto, que circunscrevia a inscrição “PÁTRIA, HONRA E VALOR”, foi furtada em dezembro de 2012. Até hoje, passados 16 meses, o éreo ornato, simbolizando distinção, glória, vitória, pureza e honestidade, não foi reposto, embora sua forma e dimensões sejam conhecidas.

    Permanece vandalizado o monumento ao nosso maior herói militar – o Coronel João Niederauer Sobrinho.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Palacete Astrogildo de Azevedo – Um século (2)

(continuação da postagem anterior)

   Alguns detalhes da construção
   O Dr. Astrogildo registrou, em 33 páginas, as despesas com materiais e mão de obra, que somaram 77 contos de réis.
   Há, nesses registros, algumas informações interessantes. A demolição da casa antiga iniciou em 23.10.1912 e foi rápida, terminando em três semanas. Em 1º de novembro, foi obtida a licença da Intendência para a nova construção e, em 16 de novembro, foi assentada a primeira pedra das fundações.
   Quatro meses depois, já estavam erguidas as alvenarias dos dois pavimentos e estava concluída a estrutura do telhado, pois em março de 1913 foram despendidos 15 kg de carne e 50 garrafas de cerveja, certamente para a tradicional festa da cumeeira. A cobertura, em quatro águas, tinha, em cada uma delas, janelas de mansarda, que não mais existem. Foram usadas placas de cimento-amianto, à semelhança de ardósias, o mesmo material adotado, na época, para o quartel do 7º Regimento de Infantaria, o palacete Theodor Carsten, a casa pastoral da Igreja Evangélica Alemã e outras, todas em 1912 e 1913.
Foram compradas 2.160  placas e 160 cumeeiras da marca Eternit, certamente produzidas na fábrica então existente na Bélgica. A cobertura é coroada por um belvedere cercado com gradis, com acesso interno por escadas e alçapão.
Foto em O Estado do Rio Grande do Sul, 1916, com
a legenda: "Elegante palacete da Rua Acampamento". 

   O portão da entrada de carros e demais grades, foram produzidos na fábrica de carruagens de Luiz Vallandro. Os mármores de Carrara foram fornecidos pela famosa marmoraria J. Aloys Friedrich, de Porto Alegre. A pintura interna decorativa, não mais existente, de paredes e tetos, iniciada em agosto de 1913, foi executada por Werner Wunderling, por 2 contos e 800 mil réis. Antonio Marques de Carvalho, professor de desenho, modelagem e pintura, executou as esculturas da porta da porta principal, por 210 mil réis.    Alguns materiais foram comprados em Montevidéu, como a fachadura Yale da porta principal, 30 outras das postas internas, o para-raios e outras peças.

   Obra pronta
   O Diario do Interior, que circulou em Santa Maria de 1911 a 1939, costumava publicar matérias detalhadas sobre edificações novas de alguma importância na cidade, como ocorreu com a obra do Banco da Província, concluída em dezembro de 1912. Em notícia de primeira página, com foto do prédio bancário, o jornal informa que a “planta e construção foram do Rudolph Ahrons, representado aqui pelo arquiteto Henrique Schütz, que dirigiu todo o serviço.”

Porta principal, esculpida por
Antonio de Carvalho.
   Por isso, chama a atenção o fato de o mesmo jornal não dar igual destaque ao imponente palacete, construído no ano seguinte, quase em frente à citada agência bancária. Leve-se em conta, ainda, a importância profissional, política e social do Dr. Astrogildo e o fato de ele e o dono do Diario do Interior serem correligionários.
   Houve apenas uma pequena nota, no citado jornal, em 12.11.13, informando que  “o palacete do Dr. Astrogildo de Azevedo, em construção à Rua do Acampamento, já está recebendo os últimos retoques.”  
   Um mês depois, Dr. Astrogildo e sua esposa D. Aura, com seus três filhos –  Estella, com 17 anos; Aracy, com 14; e Fernando, com 11 anos – passaram a habitar o novo e confortável lar. Isso foi registrado por ele: “Nos mudamos para a casa no dia 12 de dezembro de 1913”, data que marca o centenário do Palacete Astrogildo de Azevedo.

   
    Comemoração

Recital comemorativo, em 28.11.2013. À direita, Antonio Flores e Diego Ferreira de Azevedo.
   Para comemorar a passagem de um século do palacete, um evento foi organizado por Rodrigo de Azevedo Steffens, bisneto do Dr. Astrogildo. No dia 28 de novembro, no salão principal do prédio, apresentaram-se, em recital de saxofone e cordas, Diego Ferreira de Azevedo, trineto do Dr. Astrogildo, e Antonio Flores, perante uma platéia de diversas gerações da família Azevedo, amigos e convidados. Antecedeu o recital uma breve narrativa sobre aspectos históricos e técnicos do palacete, por José Antonio Brenner.
 
   Em alusão aos cem anos do prédio, cem garrafas de vinho Cabernet Sauvignon 2006, foram encomendadas à Cantina Velho Amâncio com rotulagem especial, comemorativa ao acontecimento.
   Assim, uma das mais expressivas edificações do passado santa-mariense, construída quabndo a cidade tinha apenas 15 mil habitantes, segue preservada. E o centenário de sua existência foi devidamente registrado e comemorado.

Fontes:
WEIMER, Günter. Theo Wiederspahn – Arquiteto. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009.
MONTE DOMCQ, Ramón. O Estado do Rio Grande do Sul. Barcelona: Estabelecimento Graphico Thomas, 1916. Acervo Casa de Memória Edmundo Cardoso.
Revista Commemorativa do Centenario de Santa Maria, Porto Alegre: Officinas Graphicas da Livr. do Globo, 1914.
Album de Santa Maria da Bocca do Monte, Porto Alegre: L. P. Barcellos & C., 1914.
Diario do Interior, Santa Maria, edições de 14.12.1913 e 12.11.1913. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria .
Casa de Memória Edmundo Cardoso, Santa Maria, fototeca.
Entrevista com Marina Klumb Dallasta.