segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Rodolpho Laydner – um ourives famoso

Rodolpho Laydner ~42 anos. Det. de foto
quando em visita a seu pai, em 1899.
   Nascido em Santa Maria, no dia 15 de abril de 1857, Rodolpho foi o primeiro filho homem de Jacob Ludwig Laydner e Maria Luiza Niederauer Laydner. O nascimento ocorreu na residência da família, construída três anos antes, na Rua Pacífica, depois Rua do Comércio. Após sucessivas reformas e ampliações, é a casa onde resido, na 2ª Quadra da Rua Doutor Bozano, 1065, assim renomeada, em 1924.

   Rodolpho Laydner tinha nove meses e meio quando foi batizado pelo Padre Antonio Gomes Coelho do Valle. O batismo foi celebrado na pequena e singela igreja católica da povoação, situada no local correspondente hoje à extremidade sul da Avenida Rio Branco, de frente para o espaço então destinado à praça.

   No Livro 5 de Batismos, fl. 25, da Igreja Matriz de Santa Maria, está registrado:
Rodolpho
Ao primeiro dia do mês de janeiro de mil oitocentos cincoenta e oito annos, nesta Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Santa Maria da Boca do Monte baptizei e puz os Santos Oleos ao innocente Rodolpho nascido a quinze de Abril de mil oitocentos cincoenta e sete filho legitimo de Jacob Luiz Laidner, natural d’Alemanha, e Luiza Laidner natural de São Leopoldo; netto paterno de João Laidner e Francisca Laidner; e netto materno de Filippe Niederauer e Anna Catharina Niederauer, todos os avós naturais d’Alemanha: Forão padrinhos João Veber e Maria Catharina Niederauer do que para constar fiz este assento. O Vig.º Antonio Gomes Coelho do Valle

   A madrinha, Maria Catharina Niederauer, era a esposa do então capitão João  Niederauer Sobr. - depois o heróico Cel. Niederauer -, tio do batizando, que partira, no mês anterior, integrando o Exército de Observação, para vigiar as fronteiras com os países platinos.
   O padrinho, João Weber, nascido em São Leopoldo, em 1829, casaria no ano seguinte, em 9.9.1858, com Joanna Sophia Niederauer, irmã de Maria Catharina.
   O Padre Antonio Gomes Coelho do Valle exerceu seu vicariato, em Santa Maria, de 17. 7.1853 até sua morte, em 9.11.1865.
   Rodolpho casou com Carolina Kümmel, nascida em 2.2.1862, filha de Carl Daniel Kümmel e Margarida Druck. Carolina era neta do genearca Johann Daniel Gottlieb Kümmel, nascido no vilarejo Lindenau/Prússia Ocidental, hoje Lipinka/Polônia. Foi o primeiro ferreiro da Colônia Alemã de São Leopoldo, aonde chegara em 12.8.1824.
   O casal teve os filhos: Rodolpho Laydner Filho (engenheiro civil, construiu a Hidráulica de São Leopoldo, em 1925), José Laydner, Augusto Laydner, Celina Laydner e Luiz  Laydner
   Aos 30 anos, Rodolpho e seu pai, Jacob Ludwig Laydner estavam entre os 31 fundadores do Clube Atiradores Santamariense, em 28 de setembro de 1887, então com sede na Rua Barão do Triunfo, onde havia o estande de tiro.

   Ourives
   Jacob Ludwig Laydner, pai de Rodolpho, embora fosse um jovem de 19 anos quando imigrou na Colônia Alemã de São Leopoldo, em 1848, já tivera boa formação como ourives na Europa. Poucos anos depois se estabeleceu em Santa Maria e, por volta de 1853, ele abriu a Casa Laydner, especializada em ourivesaria, relojoaria, ótica e selaria, ao lado de sua residência, onde hoje está o prédio nº 1073 da Rua Dr. Bozano.
   Na Casa Laydner, Jacob Ludwig foi mestre de seus sobrinhos e de seus dois filhos mais velhos – Rodolpho e João David – e de seu concunhado Nicolau Mergener, que abriu sua loja, em 1863, na esquina abaixo.

   Rodolpho foi o mais destacado dos filhos de Jacob Ludwig Laydner.
   Fez parte da equipe que realizou a locação da ferrovia Santa Maria-Passo Fundo, isto é, o reconhecimento preliminar que serve de base para o traçado definitivo, feito com levantamentos topográficos. O primeiro trecho seria iniciado em Santa Maria, em 1893, apesar da Revolução Federalista que convulsionava o Estado.

   R. Laydner & Cia.
   Seu irmão João David Laydner, cinco anos mais jovem, era ourives em Porto Alegre quando faleceu de "tifo preto", em 24.1.1899, com apenas 36 anos de idade.
   A viúva, Sophia Molz Laydner, então se associou com o cunhado Rodolpho Laydner. O contrato foi registrado em 8 de novembro de 1900, sob a razão social R. Laydner & Cia. no ramo de ourivesaria e relojoaria a varejo, pelo prazo de cinco anos, a contar de 22 de julho de 1899, com o capital de Rs 61:095$000 (61 contos e 95 e cinco mil réis). O contrato estabelecia:se a viúva contrair novas núpcias deixará a sociedade.” Foi registrado na Junta Comercial do RGS sob nº 2648.
   A casa de ourives de R. Laydner & Cia. ficava no centro de Porto Alegre, Rua Marechal Floriano nº 110. No Guia Bemporat, edição 1908-09, página 173, sob o título “Ourivesarias e Relojoarias”, consta: R. Laydner e Cia., Rua Marechal Floriano, 110, em Porto Alegre.
   Há 106 anos, o Correio do Povo publicou, na edição de 3 de junho de 1908, a reportagem abaixo transcrita com atualização ortográfica:

Sela mexicana - Vimos ontem, na vitrina da Casa Laydner, à Rua Marechal Floriano nº 110, uma luxuosa sela mexicana, prontificada por encomenda do Coronel João Francisco. A carona, de couro de tigre, tem, aos cantos, escudos de prata, com incrustações de ouro, e o assento é de couro de porco. Os coldres e a maleta são de couro de tigre, com guarnições de prata e ouro, e o cabeço da sela ostenta o monograma do Coronel João Francisco. O trabalho de selaria foi prontificado na Casa Schneider & Cia., e o de ourivesaria na oficina dos Srs. Laydner & Cia., fazendo ambos honra à nossa indústria. O Coronel João Francisco utilizará esta sela nas cavalhadas que se realizarão no Rio de Janeiro, por ocasião da exposição nacional. 

   O cliente era João Francisco Pereira de Souza, líder político do Partido Republicano em Livramento, que comandava o Quartel do Caty, no interior do Município, junto à divisa com Quaraí. Era uma unidade militar criada para combater a Revolução Federalista. O Cel. João Francisco acumulou grande poder militar e policial na região da fronteira e, devido à crueldade de suas ações e sua fama de sanguinário, foi chamado por Ruy Barbosa de a "Hiena do Caty".
   A exposição citada, que decorreu de 11 de agosto a.15 de novembro de 1908, comemorava  centenário da abertura dos portos. Fazia parte do programa a encenação das "Cavalhadas", uma tradição portuguesa que representava as batalhas entre cristãos e mouros, na Reconquista da Península Ibérica.
   Exposição Estadual de 1901
   O governo do Estado promoveu uma exposição industrial e agropecuária, de 24 de fevereiro a 2 de junho de1901, instalada em uma grande área à esquerda e atrás do antigo edifício da Escola de Engenharia, em frente à Praça da Argentina.
   Participaram 60 municípios com 2.200 expositores entre os quais Rodolpho Laydner. O catálogo da exposição, no setor de "Ourivesaria e joalheria", página 247, apresenta:
Expositores: Laydner & C. - Rua Marechal Floriano n. 110
Expõem os seguintes artefatos, executados em suas oficinas por operário nacionais e rio-grandenses.
Um aparelho de trança de fio de prata de 1ª qualidade, ornamentado com as armas do Rio Grande, em ouru de 18 quilates, constando das seguintes peças:
1 peitoral, 1 buçalete com cabresto, 1 cabecada. 1 par de rédeas, 1 rabicho, 1 maneia, 1 chicote, 1 freio, 1 par de bocais, 1 par de estribos meia picaria, 1 dito de esporas.
Pesando tudo 8 kg de prata e 400 g de ouro, no valor de Rs5:000$000.
2 facas guarnecidas de prata e ouro, no valor de Rs350$000.
1 par de boleadeiras de marfim, aparelhadas de prata, no valor de Rs100$000.
1 aparelho de prata encorreado em couro de anta, no valor de Rs650$000.
   Valeria atualmente Rs$24.000,00 em prata e Rs$32.000,00 em ouro, somente no apero, sem considerar a mão de obra.
   Johann Carl Laydner, vitivinicultor em Santa Maria, tio de Rodolpho, também participou da exposição com “12 garrafas de vinho tinto”, conforme o catálogo.

Exposição Estadual de 1901. À direita, a fachada lateral da Escola de Engenharia

  Política
  Rodolpho desenvolveu intensa atividade política, sendo personagem do mais alto relevo do Partido Republicano, como um dos seus fundadores e organizadores, em Santa Maria. Junto com outros cinco correligionários, fundou o Clube Republicano e, a seguir organizou o Partido na cidade, cujas reuniões eram realizadas em sua própria casa.
  Em Porto Alegre, continuou sua atividade partidária, estreitando amizade com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros.
Augusto Laydner
   Augusto Laydner, o terceiro filho de Rodolpho, tornou-se também um membro ativo do Partido Republicano. Nascido em Santa Maria, em 28.1.1889, ele começou como caixeiro-viajante nos difíceis tempos em que percorria as rústicas estradas do interior em cavalgaduras e carroças. 
   Estabeleceu-se em Porto Alegre com casa comercial no ramo de ferragens e outras mercadorias, as Casas Laydner, na Rua Marechal Floriano. Transferiu residência para a Ilha da Pintada onde, em sociedade com Oscar Schmitt, ampliou o serviço de navegação entre as ilhas e a capital, com modernas lanchas a gasolina. Casou com Santa Santos, professora.
   Em minha infância, lembro da presença de seu filho mais velho, Werther, em nossa casa, em visitas à sua tia-avó Lydia Laydner Brenner, minha avó materna.


  As capas da Constituição Estadual de 1891
  Há muitos anos, conduzido pelo saudoso colega o arquiteto José Albano Volkmer, bisneto de João David Laydner, visitei o Museu Júlio de Castilhos para conhecer a capa de prata da Constituição do Estado do Rio Grande do Sul de 1891. Volkmer informou-me que a peça, medindo cerca de 25x35 cm e contendo a inscrição  Ao dr. Julio de Castilhos a Brigada Militar, fora elaborada por Rodolpho Laydner. Fotografei então a peça de prata com uma pequena câmara analógica, sem bos condições de iluminação, resultando uma foto de má qualidade.
   Em 2005, voltei ao museu para obter uma foto melhor, mas não mais encontrei a capa de prata, nem obtive qualquer informação dos funcionários.
   Rodolpho deve tê-la feito nos primeiros anos de sua empresa em Porto Alegre, pois Júlio de Castilhos faleceu em 24.10.1903.

   Recentemente, Guilherme Souto, trineto de Rodolpho Laydner, trouxe-me a informação de que uma outra capa da Constituição Estadual de 1891, que pertencera a Borges de Medeiros, fora confeccionada em ouro por seu trisavô. Fotos dessa peça foram publicadas em O Parlamento Gaúcho - da Província de São Pedro ao século XXI, 2013, com a legenda: “Este exemplar, com capa de ouro, pertenceu a Borges de Medeiros, que a mandou confeccionar para si”. Dificilmente o Presidente do Estado do R.G.S. confiaria o trabalho a outro ourives que não fosse seu amigo e correligionário Rodolpho Laydner.
    A valiosa peça pertence ao acervo cultural da Assembleia Legislativa e até poucos anos atrás esteve exposta com a identificação: “Autor: Rodolpho Niederauer Laydner”.
    Acrescente-se que o engenheiro Amadeu Laydner, no artigo Os ourives, publicado no Correio do Povo, em 28.7.1974, afirmou:
[...] Rodolfo, igualmente ourives, viera para Porto Alegre e aqui faleceu em 1938, tendo deixado grande nome como profissional. O original da Constituição Estadual de 14 de julho de 1891 está capeado por um trabalho em prata e ouro por ele executado.
    Amadeu Laydner era neto de Jacob Luiz Laydner Sobrinho, que fora aprendiz de Jacob Luiz Laydner e
se estabelecera em Alegrete. Amadeu morava em Porto Alegre, na Rua Duque de Caxias, 1243, apartamento 901. Certamente ele conhecera a Constituição “capeada por um trabalho em prata e ouro” e não se referia à peça do Museu Júlio de Castilhos, quase em frente ao seu endereço, feita somente de prata.
    Rodolpho Niederauer Laydner faleceu em Porto Alegre, em 11 de junho de 1938, com 81 anos de idade.

Fontes:
Arquivo pessoal.
Arquivo da Cúria Metropolitana de Santa Maria. Livro 5 de Batismos, fl. 25, da Igreja Matriz de Santa Maria.
LAYDNER, Amadeu. Os ourives. Correio do Povo, Porto Alegre, 28.7.1974.
SOARES, Débora Dornsbach e ERPEN, Juliana (org.). O Parlamento Gaúcho - da Província de São Pedro ao século XXI, Porto Alegre: Assembleia Legislativa do R. G. do Sul, 2013.
TIMM, Octacilio B. e GONZALES, Eugênio (org. e edit.). Album illustrado do Partido Republicano Castilhista - RGS. Porto Alegre: Livraria Selbach, 1934.
Correio do Povo, Porto Alegre, edição de quarta-feira, 3.6.1908..


2 comentários:

somdeclasse disse...

bela pesquisa....muito bom mesmo, sempre leio seus textos, professor, são de extrema importância...obrigado!

Reginaldo Brenner Napoleão disse...

Como sempre, um grande trabalho histórico e feito por um também grande PESQUISADOR, por isso mesmo,detalhista. Gostei e muito me orgulho de ler tuas pesquisas históricas, principalmente, a respeito da nossa família BRENNER.
Grande abraço Reginaldo