domingo, 22 de maio de 2016

Otto Brinckmann – 190 anos

O dia 21 de maio de 2016 assinalou os 190 anos do nascimento de Otto Brinckmann, um alemão que adotou Santa Maria como sua terra definitiva, onde teve atuação marcante e deixou expressiva descendência.
    Carl Ferdinand Otto Brinckmann nasceu em 21.5.1826, em local não identificado da atual Alemanha, filho de August Brinckmann e Margaretha Brinckmann.
    Veio ao Brasil em 1851, com 25 anos de idade, um jovem Capitão de Artilharia contratado com os cerca de 2.000 militares do exército prussiano, pelo Governo Imperial Brasileiro para a Guerra contra Rosas e Oribe. Esses militares formaram a Legião Alemã de 1851 e ficaram conhecidos, no Brasil, pelo apelido Brummer.
   Não conhecemos a naturalidade de Otto Brinckmann. Os integrantes do exército prussiano, que atuara na recente e frustrante guerra de Schleswig e Holstein, eram naturais de vários estados da atual Alemanha. Em 1850, o Reino da Prússia tinha grande extensão territorial, desde as atuais Polônia e República Checa, a leste, até a região do Reno, a oeste.
    A viagem
Carl Ferdinand Otto Brinckmann
Imagem digitalizada a partir de foto publicada na
Revista do Centenario de Santa Maria, em 1914.
Brinckmann atravessou o oceano a bordo do navio Heinrich, que partiu de Hamburgo, em 22.6.1851, e chegou ao Rio de Janeiro, em 24 de agosto. Na viagem, o Capitão Brinckmann estava no comando de um efetivo de 156 homens da 4ª Bateria de Artilharia.
   Dos 10 navios que transportaram os Brummer ao Brasil, entre maio e julho de 1851, o Heinrich foi o sétimo e o único em que houve motim. O plano era matar os oficiais e seguir para Buenos Aires, onde venderiam o navio a Rosas e se apresentariam para o serviço militar.
  Em alto-mar, os amotinados arrombaram a despensa, se embebedaram e voltaram ao convés, onde o líder, Kaspar Rübel, tentou golpear o Capitão Brinckmann com um machado. Felizmente, estando embriagado, foi detido a tempo por dois cabos, e o motim acabou.
   O contrato assinado em Hamburgo, em 29.3.1851, pelo Capitão de Artilharia Otto Brinckmann e mais 54 outros oficiais os obrigava a servir por quatro anos, ficando ao livre arbítrio do Governo Imperial licenciá-los após dois anos. Ser-lhes-iam então concedidas 62.500 braças quadradas (30,25 hectares) de terras férteis em qualquer das províncias do Império, principalmente nas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ou passagem para a Europa e uma importância em dinheiro.
    Para o Sul
   Depois de aquartelada na Praia Vermelha, no Rio, a Artilharia Brummer foi enviada ao Sul. Em fins de novembro de 1851, parte dessa tropa, sob o comando do Capitão Brinckmann, foi embarcada em Rio Grande com destino a Montevidéu, já sob o domínio do exército brasileiro. Em 30 daquele mês, chegaram à Colônia de Sacramento. Agentes de Rosas procuravam seduzir os Brummer a desertarem para Buenos Aires, na outra margem do Rio da Prata. Dois tenentes artilheiros fugiram e ofereceram seus serviços a Rosas. Suspeitos de envolvimento, o comandante Cap. Jahn foi preso, e o subcomandante Cap. Brinckmann afastado das funções. O inquérito mostrou que ambos eram inocentes, e os capitães foram reconduzidos aos seus cargos.
Legião Alemã de 1851 - Artilheiros com o clássico capacete com ponta e guarnições
metálicas, o Pickelhaube, usado pelo exército prussiano. Imagem extraída de LEMOS,
Juvencio S. Brummers a Legião Alemã contratada pelo Império Brasileiro em 1851.

    A Artilharia Brummer não participou da Batalha de Monte Caseros, que derrotou Rosas, em 3.2.1852, junto a Buenos Aires. Apenas atuaram os Brummer da infantaria, armados com fuzis Dreyse, pela primeira vez usados no Brasil.
   Em 13 de março, os artilheiros embarcaram em Montevidéu com destino a Rio Grande. No comando estava o Major Emílio Mallet auxiliado pelos capitães Brinckmann e Jahn. O regimento ficou mais de um ano em Rio Grande, quando houve deserções e atos de indisciplina. Em meados de 1853 foi enviado a Rio Pardo onde, em 1855, expiraram os contratos, quando o Capitão Otto Brinckmann foi licenciado. Segundo Albert Schmid, foi assim "extinto o 2º Regimento de Artilharia de Estrangeiros, sem ter prestado o menor serviço de guerra para o qual foi contratado.”[1]
    Santa Maria
    Otto Brinckmann seguiu para Santa Maria, onde, supostamente em 1855, casou com Maria Basília Garcia da Rosa, nascida em São Borja.  Estabeleceu-se como agrimensor, sendo o autor de uma das mais antigas plantas do traçado urbano de Santa Maria, em 1861. Como oficial de Artilharia, tinha formação em topografia, ciência necessária à precisão na posição e orientação dos canhões para atingir os alvos. Entre muitos trabalhos, realizou  o levantamento da fazenda Filipinhos, mais tarde (1931) adquirida por Walter Jobim, e das terras de João Frederico Niederauer, na Soteia, em 1882, com a legenda:
Mappa
da medição para legitimação de uma
posse em campo e matto pertencente a
João Niederauer sita no passo da arêa
municipio de  Santa Maria  levantado
pelo  agrimensor  Otto  Brinckmann
Assinatura no Mappa de medição

  Otto Brinckmann teve posição destacada em Santa Maria, principalmente na comunidade germânica, de expressiva atividade no comércio, na indústria e em instituições santa-marienses, em meados do século XIX. Em 8.4.1866, foi um dos fundadores da Deutsche Evangelische Gemeinde (Comunidade Evangélica Alemã) de Santa Maria da qual foi presidente, em 1873, quando foi construído o templo. Otto e sua esposa foram testemunhas no casamento de Wilhelm Fischer, primeiro presidente daquela Comunidade, celebrado pelo Pastor Klein, em 22.11.1868. 
   Em 28 de outubro de 1866, em sua residência, reuniram-se 18 alemães e descendentes para fundarem o Deutscher Hilfsverein de Santa Maria, do qual Brinckmann foi o primeiro presidente. Era uma sociedade beneficente que, após mudanças nas denominações e nos objetivos, é hoje a Sociedade Concórdia Caça e Pesca-SOCEPE, uma das mais antigas do Estado que, em outubro vindouro, completará 150 anos.
   Otto Brinckmann construíra sua casa na Rua do Comércio, num terreno com 18 metros de frente, que se estendia até a Rua Venâncio Aires. No local hoje está o Edifício Block, nº 1058, na segunda quadra da Rua Doutor Bozano. No final do século XIX, funcionava em parte da casa, ou no prédio ao lado, nº 66, a oficina tipográfica de O Combatente, jornal de Candido Brinckmann, filho de Otto. Os últimos moradores do foram os membros da família do Dr. Lamartine Souza, neto de Otto. O Dr. Lamartine tinha ali sua residência e seu consultório médico. Em parte do casarão, havia também a residência de Cândido Souza, irmão de Lamartine.
Lápide no túmulo de Brinckmann

   Otto Brinckmann faleceu em 4 de janeiro de 1903, em Santa Maria, de síncope cardíaca, com 76 anos de idade. Foi sepultado no Cemitério Evangélico Alemão, desapropriado durante a 2ª Guerra e incluído no Cemitério Municipal de Santa Maria.
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Fontes:
Arquivo pessoal.
LEMOS, Juvencio Saldanha. Brummers-A Legião Alemã contratada pelo Império Brasileiro em 1851. Porto Alegre: Edigal, 2015.
LEMMERS-DANFORTH, Fedor von. Índole da Legião alemã de 1851 a serviço do Império do Brasil. Separata do Boletim do Centro Rio-Grandense de Estudos Históricos, v. 3, 1941. Rio Grande.
 Pesquisa de João Alberto Licht Teixeira.
[1] SCHMID, Albert. Os Rezingões. Apud LEMOS, Juvencio S. Brummers, 1915.

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