sexta-feira, 24 de junho de 2016

A cascata, o patrono e o esquecimento


A foto, de meados dos anos 1920, foi tirada, certamente por fotógrafo de plantão, na Cascatinha da Tijuca ou Cascata Taunay, no Rio de Janeiro.
Embaixo: Antonio Alves Ramos, sua esposa Etelvina Brenner Ramos e Emma Avellanal Laydner, casada com Júlio Laydner, meu tio-avô. Em cima: Aracy de Figueiredo Paz, Maria Luiza Brenner (minha mãe) e uma jovem não identificada.
Antonio Alves Ramos
Na data desta postagem, 24 de junho de 2016, faz 166 anos que nasceu Antonio Alves Ramos, em uma localidade não identificada de Portugal, filho de Domingos Braz Alves e Maria Theresa Ramos. Ele chegou ao Brasil com 14 anos de idade e empregou-se no comércio do Rio de Janeiro. Mais tarde, veio para a Província de S. Pedro do Rio Grande do Sul, tendo trabalhado em Rio Grande, Pelotas, Bagé, Livramento e, finalmente, em Santa Maria, onde se fixou como comerciante, em 1876.
Em 2 de dezembro de 1882, ele casou com Etelvina Veronica Hoffmeister Brenner, irmã do meu avô materno. Ramos tinha 32 anos de idade, e sua noiva 16.
Ele tornou-se um muito bem-sucedido empresário da construção de ferrovias. Entre 1893 e 1910, construiu vários trechos da Viação Férrea: Santa Maria–Passo Fundo, Dilermando de Aguiar– Cacequi, Cacequi– Alegrete, São Gabriel– São Sebastião e Cacequi– Livramento.
Nas cidades do Estado onde trabalhou, procurou criar, auxiliar e animar as instituições de caridade. Os hospitais de São Gabriel, Santana do Livramento e Cruz Alta foram por ele sempre socorridos generosamente, o que garantiu sua existência e desenvolvimento. Em Santa Maria, muitas associações, de quaisquer naturezas, receberam a benéfica proteção de Antonio Alves Ramos.
O Orfanato S. Vicente de Paulo, o Asilo Padre Caetano e, especialmente, o Patronato Agrícola Antonio Alves Ramos, obra quase exclusiva sua, foram provas disso. Nessa última importante obra social para assistência e formação de menores carentes da cidade, inaugurada em 1929, Ramos despendeu, generosamente, 130 contos de réis para compra da área de 75 hectares – transmitida diretamente aos Padres Palotinos –, para as edificações e manutenção, que foi continuada por sua viúva.

Na inauguração do Patronato, em 17.3.1929, Padre Alfredo Pozzer,
 Etelvina e Antonio Alves Ramos e Padre Caetano. Foto de Bortolo Achutti.

Diario do Interior, 26.3.1931 - p.4
Anos depois, cessou a finalidade assistencial para a qual o Patronato Antonio Alves Ramos fora criado, e o nome do magnânimo benfeitor foi relegado ao esquecimento, permanecendo apenas na denominação de uma escola ali existente.
No primeiro aniversário da morte do patrono, em 27.3.1931, sua herma foi inaugurada, no pátio do Patronato. Foi executada em bronze por artista da empresa do escultor alemão Jacob Aloys Friedrichs, de Porto Alegre, uma das mais importantes produtoras da estatuária e decoração predial e cemiterial. Após a morte da viúva, foi afixado no pedestal um medalhão de bronze com sua imagem.
O monumento, no jardim frontal da escola, jaz ignorado, sem qualquer inscrição que identifique o magnânimo casal.

Hotel Glória
Antonio e Etelvina costumavam passar parte do inverno no Rio de Janeiro. Hospedavam-se sempre no Hotel Glória, no Bairro Glória, desde sua inauguração, em 15 de agosto de 1922. Obra do arquiteto francês Joseph Gire e do engenheiro alemão Sylvio Riedlinger, para a Exposição Internacional de 1922, foi o mais luxuoso e o primeiro cinco estrelas do país.
Hotel Gloria, no tempo em que confrontava com as águas da
baía, antes do Aterro do Flamengo. Acervo Francisco Patrício.
   Na época da foto na Cascatinha, supostamente nos primeiros anos do Hotel Glória, o casal levou na viagem sua jovem sobrinha Maria Luiza Brenner e sua amiga Aracy de Figueiredo Paz, então campeã do Avenida Tênis Clube. Eram amigas no tênis e também tinham laço de parentesco: Maria Luiza Niederauer, avó de Maria Luiza Brenner, era irmã de Elisabetha Niederauer, avó de Aracy Paz.
   O empresário Eike Batsta comprou o Hotel Glória e iniciou uma total reforma, interrompida há seis anos. Há notícia de que o prédio foi recentemente vendido a um fundo de investimentos de Abu-Dhabi, mas o hotel, de glorioso passado, permanece reduzido a um lamentável estado de ruinoso abandono.

   Cascata
Tela de Nicolas-Antoine Taunay.
   A Cascatinha da Tijuca ou Cascata Taunay, é a de maior altitude do Parque Nacional da Tijuca, e fica a 15 quilômetros do Hotel Glória.
A Cascatinha Taunay tem esse nome porque o pintor francês Nicolas-Antoine Taunay, membro da Missão Francesa, trazida ao Brasil por Dom João VI em 1816, construiu ali sua residência que não mais existe. Taunay imortalizou a Cascatinha em seus quadros e se tornou o grande anfitrião da floresta, recebendo membros da corte que passaram a adquirir terras vizinhas.
Logo a Cascatinha Taunay despertou interesse dos visitantes e dos artistas, tendo sido pintada, desenhada, fotografada e cantada em prosa e verso (Rugendas, Taunay, Marc Ferrez, José de Alencar). Esse último autor escreveu:
Ha cascatas muito mais ricas e abundantes do que essa, não só na grande massa das águas como na vastidão e aspereza dos penhascos. Têm, sem dúvida, aspecto mais soberbo e majestoso, inspiram n'alma pensamentos mais graves e sublimes. A Cascatinha da Tijuca, porém, prima pela graça; não é esplêndida, é mimosa; em vez de pompa selvagem respira uma certa gentileza de moça elegante; bem se vê que não é filha do deserto; está a duas horas da Corte, recebe frequentemente diplomatas, estrangeiros ilustres e a melhor sociedade do Rio de janeiro.

   A poética descrição de Alencar, escrita no século XIX, ainda era válida na época da visita de Antonio Alves Ramos e seu grupo à Cascatinha. A Floresta da Tijuca é uma importante área de lazer, com trilhas e espaços próprios para a prática de esportes com ciclismo, corrida e montanhismo, onde a Cascata Taunay é uma das principais atrações.
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Fontes:
Arquivo pessoal
Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria - Hemeroteca: jornal Diario do Interior.
ALENCAR, José de. Sonhos d’ouro. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1951.
BRENNER, José Antonio. Antonio Alves Ramos e Etevina Hoffmeister Brenner (ensaio para um biografia), 2002 n.p.
http://www.parquedatijuca.com.br/#atracao?id=23Alexandre Justino
https://www.flickr.com/photos/carioca_da_gema/274680342

4 comentários:

Marilia disse...

Parabéns pela justa homenagem a um homem magnânimo e infelizmente esquecido pelos santa-marienses.
As fotos estão excelentes e dão uma ótima noção de todos os fatos narrados.

Sobre o Hotel Glória, eu passava diariamente na frente dele, nos anos de 1975-76, pois morava nessa mesma quadra,na praia do Flamengo. Nessa época, ele ainda conservava o seu charme. Em 1991, retornei ao Rio de Janeiro para participar de um Congresso da minha área e, coincidentemente, o evento foi no próprio Hotel Glória, razão pela qual fiquei hospedada nele. Muito lindo por dentro!
Fiquei triste ao saber que esse belo e charmoso hotel está em fase decadente.

Marilia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marilia disse...

Meu tio-avô Otacílio Souza Lautert foi casado com Doralice Laydner, ambos alegretenses. Será que Doralice teria alguma ligação de parentesco com seu tio-avô Julio Laydner?

Marilia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.