sexta-feira, 8 de abril de 2016

Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Santa Maria - 150 anos

No dia 8 de abril de 1866, um expressivo número de imigrantes alemães e descendentes, moradores em Santa Maria e no Pinhal, hoje Itaara, fundou a Deutsche Evangelische Gemeinde, ou seja, a Comunidade Evangélica Alemã, atual Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Santa Maria.

Antecedentes
Alemães e descendentes começaram a se fixar em Santa Maria, desde 1829, quando chegou à povoação o 28º Batalhão de Caçadores.  Era formado por militares contratados na Alemanha pelo governo imperial, em 1824, para reforçar o exército brasileiro.
Enviados ao Sul a pretexto de lutarem na Guerra Cisplatina, que, entretanto, terminara, foram logo licenciados. Alguns ficaram em Santa Maria, enquanto muitos outros foram à Colônia Alemã de São Leopoldo à procura de terras, o que tornou a povoação santa-mariense conhecida naquela região colonial. Iniciou, então, uma contínua migração de famílias desde as antigas colônias para Santa Maria, mesmo durante a Guerra dos Farrapos (1835-1845), que se tornou mais intensa após o conflito.

Em meados do século XIX, era muito marcante a presença germânica em Santa Maria. Isso levou BELÉM (1933) a escrever que, na época, a localidade parecia “fundada por alemães, em razão dos nomes germânicos que ostentavam as tabuletas e letreiros de todos os estabelecimentos comerciais e oficinas.”
A maioria dos alemães professava a religião evangélica luterana e, durante as mais de três décadas que antecederam a fundação da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria, eles socorreram-se dos ofícios da Igreja Católica para celebrar seus casamentos e batismos. Sua fé cristã e seus costumes os levavam a legitimar suas famílias segundo a tradição religiosa.
Peter Cassel - Tela de H. Calgan 1890
acervo: Casa de Memória Edmundo Cardoso
Em 1860, os alemães luteranos, sob a liderança do alfaiate Peter Cassel, obtiveram do governo provincial uma área de pouco menos de 2.000 m² para instalar o Cemitério Evangélico, que, no início dos anos 1940, foi incorporado ao Cemitério Municipal.
A concessão da área, seis anos antes de os peticionários se organizarem em uma Comunidade, revela a existência, havia algum tempo, de um grupo unido e com iniciativas tendo à frente lideranças atuantes e influentes. 
Mantinham uma casa de reuniões, em local não identificado, que deveria servir como casa de oração e para celebrações, quando, esporadicamente, chegava à localidade algum pastor visitante.
 Um desses pastores foi Erdmann Georg Richard Ernst Wolfram que, durante seu pastorado em Santa Cruz, realizou visitas periódicas para dar assistência espiritual aos evangélicos santa-marienses. Segundo MÜLLER (1986), em uma visita a Santa Maria, em 1853, o Pastor Wolfram participou de uma tentativa de fundação da Comunidade. Embora não tenha se efetivado, a intenção revela ações nesse sentido.
Fundação
Pastor Borchard celebrou
o culto no dia da fundação
Em 1866, havia em Santa Maria um grande número de alemães e descendentes, conseqüente da contínua migração, desde as antigas colônias, iniciada 35 anos antes, e de imigrantes chegados diretamente à vila. Na fundação da Comunidade Evangélica, uniram-se os alemães luteranos da vila santa-mariense e um pequeno número da colônia alemã do Pinhal (Itaara), assentada nove anos antes. Segundo o Pastor KOPP (1914), havia 105 sócios na data da fundação da Comunidade. Referia-se aos sócios contribuintes, na maioria chefes de família, o que permite supor um total próximo de 400 pessoas, número relevante quando viviam menos de 6.000 habitantes em todo o Município.
O dia da fundação, 8.4.1866, era domingo, e o culto foi celebrado, na casa de reuniões da Comunidade, pelo Pastor Dr. Georg Hermann Borchard, pároco de São Leopoldo. Enviado ao Brasil pelo Conselho Superior Eclesiástico de Berlim, em 1864, o Pastor Borchard era a maior autoridade da Igreja Evangélica no sul do país.

Documento fundamental
Em pesquisa no Arquivo Histórico do RGS, em Porto Alegre, em 1996, encontramos o registro da ata de eleição do Pastor Hugo Alexander Klein. Esse registro é a prova documental irrefutável da data de fundação, também afirmada por KOPP (1914).
Wilhelm Fischer, o famoso boticário
alemão, foi o 1º Presidente
Trata-se de documento único, de importância fundamental para a história da Comunidade, tendo em vista a destruição, durante a Segunda Guerra Mundial, de toda a documentação da fundação e das sete décadas seguintes. Conhecida na cidade como a “igreja dos alemães”, o templo e a casa pastoral foram atacados, em 19 de agosto de 1942, em decorrência dos movimentos antigermânicos. Toda a documentação registral referente a batismos, confirmações, casamentos e óbitos, a biblioteca e outros documentos foram queimados na via pública. Foi assim cometido um crime contra a memória local, transformando em cinzas 76 anos de história.
A ata de eleição do Pastor Klein revela a primeira diretoria da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria, quando cita que aquele “diploma vai  assinado  pelo  Presidente  e  os  mais  Mesarios.  Santa  Maria,  8  de  Abril  de  1866. – Guilherme Fischer, Presidente – Theodoro Poettcke, Secretario – Heinrich Eggers – Philipp  Schirmer – Abraham Cassel –  João Heinrich Drustz.” (na verdade Druck)
1º sinete da Comunidade e assinatura
do Pastor Klein, no certificado de Con-
firmação de Peter Falkenberg, em 14.4.1867
Mesário era o membro da mesa ou seja, da diretoria de uma associação. Se para a eleição do Pastor já existia a mesa, citando presidente, secretário e demais dirigentes, é porque essa diretoria já fora eleita, certamente na primeira parte da mesma assembléia.
A ata foi transcrita na Secretaria do Governo da Província, em Porto Alegre, com o fim específico de obter o registro do Pastor. Atendia, assim, a Lei no 1.144 de 1861, regulamentada pelo Decreto do Imperador D. Pedro II, no 3069, de 17.4.1863, que dispunha sobre o registro civil dos não-católicos. Estabelecia as condições para que “pastores das religiões toleradas” pudessem praticar seus ofícios religiosos, “susceptíveis de produzir efeitos civis.”
A citada ata é também valiosa porque revela os principais líderes, na época da fundação, conduzidos à direção da Comunidade. 
Desde a esquerda: Philipp Jacob Schirmer e Abraham Cassel, diretores. Johann Heinrich Druck, tesoureiro.
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Fontes:
Arquivo pessoal.
BELÉM, João. História do Município de Santa Maria. Porto Alegre: Selbach, 1933.
BRENNER, José Antonio. “Os Primórdios da Comunidade Evangélica Alemã de Santa Maria”. Revista do Inst. Histórico e Geográfico de S.Maria. Nº 6, 1999.
KOPP, Paul Friedrich. “Chronica da Parochia Evangelica Allemã de Santa Maria”. Revista Commemorativa do Centenario de Santa Maria, em 1914
MÜLLER, Armindo L. “O começo da Igreja Evangelica no Vale do Rio Pardo”. Simpósio de História da Igreja. São Leopoldo: Rotermund S.A./Editora Sinodal, 1986.

4 comentários:

Fernanda Pedrazzi disse...

Obrigada por compartilhar conosco suas pesquisas... Seu gosto pela história é contagiante!

Fernanda Pedrazzi disse...

Obrigada por compartilhar conosco suas pesquisas... Seu gosto pela história é contagiante!

Solano Machry Krum disse...

Obrigado meu Professor - Dr Brenner - pelos ricos comentários.
10 de abril de 2016

Fabiano Anderson Pedroso disse...

Professor Brenner, saudações.

Primeiramente, peço desculpas por escrever aqui sobre um assunto não relacionado ao post.

Gostaria de saber se desde a publicação do teu livro a Saga dos Niederauer houve algum avanço nos estudos genealógicos referentes a segunda leva. Especialmente em relação ao Fellipe Niederauer (2º) e a sua filiação a partir do Georg Henrich. No teu livro ainda não havia certeza disso. Ouvi dizer que tem um livro do senhor Ondy Niederauer que possui algumas informações adicionais desse Henrich. Sabe se esse Henrich citado pelo Ondy é, definitivamente, o mesmo Georg Henrich que consta na Saga dos Niederauer e pai do Felippe (2º)?

Também gostaria de saber se tens conhecimento de onde posso conseguir esse livro do Ondy sobre os Niederauer.

Abraço.