quarta-feira, 6 de maio de 2015

O primeiro automóvel em Santa Maria

   Em 27 de março último, o amigo Marco Aurélio Biermann Pinto visitou-me, trazendo um precioso presente: o livro 50 Anos de Viagem - Trabalhos, Peripécias e Alegrias, 1972, de Francisco da Rocha Timm, conhecido como "Chicotim".
   Em 272 páginas, o autor narra diversos episódios vividos durante cinco décadas de sua atividade como caixeiro-viajante.
    Na leitura, minha atenção foi logo voltada para o caso do primeiro automóvel em Santa Maria. "Chicotim" narra, com riqueza de detalhes, o inusitado acontecimento de um veículo automotor rodar pelas ruas da cidade, em 1908.
Francisco da Rocha Timm, o "Chicotim",
nasceu em São Pedro, em 24.7.1893 .
 
   O automóvel pertencia ao comerciante Justino Couto, que tinha sua residência e comércio em um prédio na esquina sudoeste da Rua Floriano Peixoto com a Avenida Ypiranga, atual Avenida Presidente Vargas. O ramo de sua casa comercial era o chamado "armazém de secos e molhados", isto é, varejo de gêneros alimentícios sólidos e líquidos.
   Justino Couto teve os filhos Dalton e Dalva.
   Dalton Couto, nascido em 25.12.1914, foi secretário geral da Câmara de Vereadores. Eleito suplente de vereador, assumiu o mandato (1960-63). Foi diretor da Rádio Medianeira (1960-65) e redator-chefe do gabinete do reitor da UFSM (1969-84). Ator amadaor, Dalton foi muito atuante na Escola de Teatro Leopoldo Fróes.
 
Justino Couto - Recorte de uma foto da família.
 Dalva Couto, nascida em 24.2.1919, casou com Werner Grau. O casal teve o filho Eros Roberto Grau, nascido em Santa Maria, em 19.8.1940. Ele formou-se em Direito em 1963 (Univ. Mackenzie) e teve brilhante carreira como jurista, professor e autor de livros publicados no Brasil, Itália e Espanha. Doutor Honoris Causa por universidades do Brasil, Argentina e França. Ministro do Supremo Tribunal Federal (2004-2010).
   Em memória de Justino Couto, foi denominada, em 1958, uma rua de Santa Maria, antes chamada Rua Dr. Osvaldo Cruz, transversal da Av. Presidente Vargas, quando ainda se chamava Av. Ypiranga.
   Sorte grande
   Em 1908, Justino Couto jogou na loteria e ganhou o primerio prêmio, a "sorte grande". Naquela época, nenhum banco tinha filial em Santa Maria. As primeiras casas bancárias na cidade, instaladas em prédios alugados, na Primeira Quadra da Rua do Comércio, foram inauguradas em março de 1910: o Banco Nacional do Comércio, no dia 22, e o Banco da Província, no dia 28.
   Por essa razão, ele precisou tomar o trem e viajar a Porto Alegre, para receber o seu prêmio.
   O carro Fiat
   Na capital, Justino Couto se encantou com um automóvel Fiat, em exposição numa loja, e, tendo recebido um bom dinheiro, decidiu comprá-lo. O carro foi transportado por trem até Santa Maria, onde, segundo supôs "Chicotim", foi deslocado por tração animal da estação ferroviária até a casa do proprietário, num percurso de quase dois quilômetros. Passando pelo centro da cidade, despertou grande curiosidade e expectativa para quando o automóvel fizesse o primeiro passeio pelas ruas, movido por seu motor de 30 HP e dirigido por seu proprietário.
O carro de Justino Couto poderia ser semelhante e este modelo Fiat fabricado de 1908 a 1910.
   Os preparativos para tal façanha, na casa de Justino, foram vistos por um menino, que passou a divulgar pela cidade o que estava por acontecer.
   Era um grande acontecimento na pequena Santa Maria, então com cerca de 10 mil habitantes. Mesmo em Porto Alegre os automóveis haviam começado a circular apenas no ano anterior.
   Assim, numa tranquila manhã santa-mariense, Justino Couto saiu de sua casa dirigindo o seu Fiat pela Rua Ypiranga, hoje Pinheiro Machado, entrando na Rua do Acampamento em direção ao centro.
   Após percorrer a Rua do Acampamento, Justino entrou na Primeira Quadra da Rua do Comércio, hoje calçadão da Rua Dr. Bozano, e seguiu descendo a rua.
   Ao longo desse percurso, o veículo, com seu estrepitoso motor, causou admiração e espanto às pessoas, e espavoriu os animais atrelados às carroças, carruagens e tílburis, assim como os que serviam de montaria. Saíram em disparada, e os condutores, cocheiros e cavaleiros mal conseguiram contê-los, precisando entrar nas ruas transversais para acalmá-los. Felizmente, não houve graves danos físicos, apenas um jovem cavaleiro, derrubado de seu cavalo, teve leves ferimentos.
   Após a esquina com a Rua Duque de Caxias, em declive mais acentuado, o carro ganhou velocidade que não foi contida pelo motorista. Assim correu dois quarteirões até a Rua Barão do Triunfo.
   O acidente
   No cruzamento da Rua do Comércio com a Barão do Triunfo, uma depressão no pavimento fez o motorista perder o controle do carro e colidir contra uma casa situada na esquina noroeste. A parede da casa era de alvenaria de tijolos assentados com barro e desabou. "Chicotim" ouviu dizer que os moradores foram tomados de grande pavor e que ali vivia "um paralítico que saiu em disparada". (!?)
   O autor escreveu que esse foi o primeiro acidente de automóvel ocorrido no Estado do Rio Grande do Sul.
   O primeiro automóvel a rodar pela cidade e o acidente por ele provocado apavoraram os santa-marienses. Ao ouvir o ruído do motor, as pessoas que estavam nas ruas corriam assustadas, recolhendo as crianças às suas casas. Reclamavam providências das autoridades contra tal barbaridade, pois não se sentiam em segurança nem mesmo no interior dos prédios. Não havia mais tranquilidade na pequena Santa Maria.
   "Chicotim", então com 15 anos, morava com sua avó na Rua Venâncio Aires, perto do Regimento Mallet. Quando saía para ir ao Colégio Distrital, era muito recomendado para evitar as ruas, por causa do temido automóvel. O colégio ficava na Rua Coronel Niederauer, onde hoje está o Instituto de Educação Olavo Bilac. Para não andar nas ruas, ele devia atravessar a coxilha onde, no ano seguinte, começariam as obras o quartel do 7º Regimento de Infantaria. Mas sua curiosidade o levava a percorrer parte da Rua do Comércio, na esperança de ver o Fiat.

Parte da Planta da Cidade de Santa Maria - 1902, do agrimensor José Nehrer
De sua casa até o local do acidente, Justino Couto dirigiu seu Fiat num trajeto de cerca de 1.700 metros, marcados em amarelo no mapa. Na Rua Ypiranga ainda não havia calçamento, no trecho correspondente à atual Pinheiro Machado, ao longo da Praça Roque Gonsalez, então chamada Praça Ypiranga.
Depois seguiu pela Rua do Acampamento até a Praça Saldanha Marinho que havia apenas quatro anos que recebera sua primeira arborização e pavimentação no perímetro. então dobrou a esquina da Pharmacia Fischer, entrando na Primeira Quadra da Rua do Comércio - o atual Calçadão Salvador Isaia - e desceu até a esquina do acidente. As ruas do Acampamento e do Comércio eram calçadas com pedras irregulares de basalto. A casa de Justino Couto e a do acidente estão destacadas em vermelho.

O livro de Francisco da Rocha Timm tem apresentação de seu colega e amigo Mario Napoleão, que destaca a obra como o apanhado vivo de uma época, entre as décadas de 1910 e 1960.
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Fontes:
Acervo pessoal.
TIMM, Francisco da Rocha. 50 Anos de Viagem - Trabalhos, Peripécias e Alegrias. Porto Alegre: Gráfica Editora a Nação S. A.,1972.
Lei Municipal nº 632, de 23 de fevereiro de1958.
José Nehrer – Planta da cidade de Santa Maria, 1902..

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Poetas patronos

   Neste ano de 2015, a Feira do Livro de Santa Maria será aberta no próximo dia 25 de abril, sábado, e será encerrada em 10 de maio. O nosso maior evento literário tem assim sua 42ª edição, considerando todas as edições, desde a I Feira do Livro de Santa Maria, aberta em 25.5.1962.
   Em 27.4.1968, foi aberta a III Feira do Livro de Santa Maria, na verdade sua quarta edição, considerando a Feira Internacional do Livro/UFSM, em 1967. Naquela edição de 1968, os organizadores instituíram o patronato da Feira para homenagear escritores quase sempre santa-marienses.
   Desde que foi instituída essa homenagem, na III Feira do Livro de Santa Maria, em 1968, apenas cinco vezes ela foi concedida a autores consagrados à poesia. O primeiro patrono, em 1968, foi Felippe d’Oliveira seguido pelos poetas Luiz Guilherme do Prado Veppo, em 1996, Antonio augusto Ferreira, em 2003, Tânia Lopes, em 2004, e Haydée Hostin Lima, na atual edição de 2015.
 
Os poetas Prado Veppo, Antonio Augusto Ferreira e Tânia Lopes.
   Haydée Schlichting Hostin Lima
   O patronato desta 42ª edição é uma homenagem à poeta Haydée Hostin Lima.
   Natural de Paranaguá/PR, ela viveu desde a infância em Santa Maria, onde se formou em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Imaculada Conceição.
   Professora estadual por 24 anos e mais seis anos em escolas particulares, também foi servidora na UFSM durante seis anos.
Haydée Hostin Lima
   Sócia fundadora da Casa do Poeta de Santa Maria, em 2002, participou de todas as diretorias, sendo três vezes presidente. É membro da Academia Santa-Mariense de Letras e vice-presidente do Fórum de Entidades Culturais de Santa Maria.
   Haydée foi duas vezes premiada no Concurso Literário Felippe d’Oliveira (2003 e 2009) e também recebeu o Prêmio Lilla Ripoll de Poesia, em Porto Alegre, nos anos 2007, 2009 e 2010.
Recebeu, em 2008, a Medalha do Mérito Cultural Prado Veppo, concedida pelo Poder Legislativo de Santa Maria.
   É autora dos livros de poemas Coração Guepardo, Telhado de Vidro, Santa Saudade e Equilíbrio de Açucenas, e do infantil As tartaruguinhas. Participou em mais de 70 antologias publicadas em Porto Alegre, Santa Maria, Livramento e São Paulo.
No próximo dia 5 de maio, Haydée Hostin Lima autografará, na Feira do Livro que a homenageia, sua obra Tatuagem, lançada há poucos dias, na 6ª Feira do Livro de Cacequi.

   Felippe Daudt de Oliveira
   O primeiro patrono da Feira do Livro de Santa Maria foi o poeta santa-mariense Felippe d’Oliveira, nascido na cidade, em 23 de agosto de 1890, filho do pernambucano Felipe Alves de Oliveira, juiz de direito, e da santa-mariense Adelaide Daudt. Ele também foi jornalista, farmacêutico, empresário, esportista e escritor.
   Sua poesia teve, inicialmente, influência do Simbolismo e, na segunda metade dos anos 1920, aderiu ao movimento de vanguarda do Modernismo. Em sua obra, destacam-se os livros Vida Extinta, Lanterna Verde, Alguns Poemas e Livro Póstumo.
Felippe d'Oliveira em tela
de Candido Portinari.
   Tendo apoiado a Revolução Constitucionalista de 1932, tornou-se procurado pela polícia o que o levou a autoexilar-se na França. Ele faleceu aos 42 anos, em 17 de fevereiro de 1933, vítima de um acidente de carro, na estrada entre Paris e a cidade de Auxerre, localizada a 170 quilômetros ao sudeste daquela capital.
16.7.1935 - Prefeito João Antonio Edler inaugura
a herma. Foto publicada em Homenagem a Felippe
 d'Oliveira
 - acervo Marco Aurélio Birmann Pinto


   Em sua homenagem, foram batizadas ruas no Rio de Janeiro, em São Paulo e Porto Alegre, onde também foi dado o seu nome a uma escola estadual de 1º grau. Em Santa Maria, além de também dar nome a uma rua, uma herma com sua imagem foi erigida na praça central. O poeta santa-mariense é patrono da cadeira nº 37 da Academia Rio-Grandense de Letras e da cadeira nº 3 da Academia Santa-Mariense de Letras. É tambem patrono do Concurso Literário Felippe d’Oliveira, em Santa Maria, que realiza neste ano sua 38ª edição.
   Herma
   Na Praça Saldanha Marinho, em Santa Maria, onde se realizam as feiras do livro, foi erguida a herma de Felippe d'Oliveira, uma valiosa obra do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret. Considerado um dos mais importantes do país, Brecheret introduziu o Modernismo na escultura brasileira e foi premiado como o melhor escultor nacional, na 1ª Bienal de São Paulo, em 1951.
   A obra foi oferecida a Santa Maria pela Sociedade Felippe de Oliveira do Rio de Janeiro, agremiação literária e editora assim denominada em homenagem ao poeta.  O monumento foi inagurado pelo prefeito João Antonio Edler, em 16.7.1935.
   Há 80 anos a herma de Felippe d’Oliveira enriquece o acervo artístico de nosso principal logradouro público. Entretanto, a valiosa homenagem escultórica ao primeiro patrono da Feira do Livro de Santa Maria jaz ignorada entre as tendas do evento.
   Minha solicitação, na edição do ano passado, de que a herma fosse devidamente valorizada com iluminação e identificação não foi atendida.
Em data recente, a herma foi retirada. Certamente, Felippe d'Oliveira estará ausente da Feira do Livro da qual foi o 1º patrono. 
Foto à direita: Athos Miralha da Cunha 

   O valor de tal medida seria inegável porque teria função informativa e educativa aos visitantes, ao dar realce ao ilustre santa-mariense que foi o primeiro patrono de nossa Feira do Livro, representado em obra de importante artista visual do país. É lamentável que justamente em época da Feira do Livro a herma tenha sido retirada de seu pedestal.
   Na presente edição, quando nosso principal evento literário homenageia a poeta Haydée Hostin Lima, a herma do primeiro patrono – o também poeta Felippe d’Oliveira – certamente não estará em seu lugar para receber o merecido destaque.
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Fontes
SANTOS, Zosymo Lopes dos. Felippe D’Oliveira – Estudo Biobibliográfico. In: Homenageando Felippe d’Oliveira, UFSM, 1980.
Diario do Interior, Santa Maria, ed. 23.6.1935.
http://www.santamaria.rs.gov.br/noticias/10038-feira-do-livro-2015-festa-literaria-de-santa-maria-define-seus-homenageados

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Pelouse Dr. Lamartine

Desde quando foram estabelecidas suas primeiras regras, no século XIX, o tênis era jogado em quadras de grama. O primitivo nome inglês lawn-tennis significa, literalmente, tênis em gramado. Em francês, gramado é pelouse, denominação que era usada para a quadra de tênis. Em Santa Maria, desde a inauguração da primeira quadra do A.T.C., em 1917, na Av. Rio Branco, nunca houve quadra de grama, mas de terra batida. Entretanto, desde o início e durante muitos anos, as quadras do clube eram chamadas pelouses. A expressão francesa havia se incorporado ao esporte, como sinônimo de quadra de tênis.
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A partir da inauguração de sua terceira sede, em 15.12.1923, na Praça do Mercado, a atual Saturnino de Brito, o Avenida Tênis Clube passou a denominar suas quadras de tênis, em homenagem a ateceanos ilustres. A quadra nº 1 foi denominada “Pelouse Dr. Azevedo”, em reconhecimento ao trabalho do engenheiro Antonio Rodrigues de Azevedo, presidente do clube, na construção da sede.

Seis anos depois, o clube decidiu homenagear o médico Lamartine Souza, dando seu nome à quadra nº 3.

Lamartine Souza
Dr. Lamartine - Recorte de foto
na inauguração da sede, na Praça
da República, em 18.10.1931.
Nasceu em Santa Maria, em 18 de novembro de 1896, filho de Cândido Francisco de Souza e Porfíria Brinckmann de Souza. Pelo lado materno, era neto do alemão Carl Ferdinand Otto Brinckmann que veio ao Brasil como oficial Brummer e se fixou em Santa Maria como agrimensor.
Lamartine formou-se médico, em dezembro de 1919, pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Seu anel de grau foi um presente de sócios da Soc. União dos Caixeiros Viajantes a seu pai, Candido Souza – o presidente fundador –, na comemoração do 6º aniversário da sociedade, em 20 de setembro daquele ano.
Lamartine casou com Francisca Rosa Campos – que preferia ser chamada Chiquinha –, com quem teve os filhos Berenice e Graciano.
D.ª Chiquinha, como era conhecida e por todos chamada, era talentosa desenhista e caricaturista. O A.T.C., órgão do clube, na edição de 6.9.1934, publicou uma caricatura de Lamartine de autoria de Chiquinha Souza, que assinou C. S.
A legenda da caricatura cita os dois principais tenistas do A.T.C. Lamartine Souza, campeão até 1933, e Ennio Brenner, que o sucedeu como campeão.Lamartine começara a jogar tênis no Avenida, quando ainda era estudante de Medicina em Porto Alegre. Durante o período de férias, em 1918, ele começou a frequentar a quadra do A.T.C, em sua primeira localização, na Av. Rio Branco, tendo, logo depois dos primeiros treinos, vencido os jogadores antigos que o instruíam.
Após formar-se em Medicina, ele instalou seu consultório em Santa Maria, em 1920. No primeiro campeonato interno organizado pelo clube, naquele ano, Lamartine sagrou-se campeão.
Nos muitos torneios que o A.T.C. disputou com clubes de outras cidades do Estado, o campeão atuou com invulgar brilho, conquistando com elevados escores a vitória para o seu clube. Consolidou assim um esplêndido conceito nos meios tenísticos estaduais.

Dirigente do A.T.C.
Além de campeão, Lamartine Souza exerceu vários cargos administrativos no A.T.C.
Aos 25 anos de idade, em 1922, foi eleito vice-presidente.
Quando foi criado o cargo de diretor esportivo, Lamartine foi aclamado pela assembleia geral de 12.8.1923, para exercer a função.
Em 1926, serviu como 1º secretário, e em 1928 e 1930, integrou o Conselho Fiscal. Foi novamente vice-presidente, em 1932.
Mais uma vez eleito vice-presidente do clube, na assembleia geral de 3.3.1934, assumiu a presidência quando o titular desse cargo, o advogado João Bonuma, renunciou em razão de sua mudança para Porto Alegre. Por motivos não esclarecidos, em dezembro daquele ano, Lamartine pediu demissão de seu cargo de vice-presidente em exercício da presidência, no que foi seguido pelo diretor esportivo Carlos Lang. Isso motivou uma assembleia geral extraordinária, em 28.12.1934, no Clube Comercial, presidida por João Appel Lenz. A assembleia aclamou então uma nova composição da diretoria com Lamartine Souza como presidente e Carlos Lang como diretor esportivo, com mandato até março do ano seguinte, quando houve eleição ordinária.

A homenagem
Na sessão de diretoria de 11 de novembro de 1929, sob a presidência de João Appel Lenz, foi decidido, conforme a ata nº 59, “realizar-se no dia 15 do corrente a inauguração da pelouse n° 3 – Pelouse Dr. Lamartine –, em homenagem ao nosso campeão e abnegado consócio, pela brilhante atuação com que há longos anos vem mantendo o prestigio esportivo do A.T.C.”
O Diario do Interior noticiou a decisão, na edição de quinta-feira, 13.11.1929, pág. 2:


Desde a construção da sede na Praça do Mercado, em 1923, o clube tinha três quadras de tênis. A 3ª quadra ficava junto à Rua Duque de Caxias e, após alguns anos, arruinada pelo tempo, ficou sem uso. Em 1929, em razão do grande movimento desportivo então intensificado por muitos sócios novos, na maioria jogadores, a direção do clube deliberou reconstruir a quadra nº 3.
A festa desportiva de 15 de novembro de 1929 foi organizada para inaugurar a reconstrução da quadra 3.
Diario do Interior, 15.11.1929 (trecho)
Foi realizado um grande torneio de tênis, dedicado ao valoroso antigo campeão do Avenida, com a participação de cinquenta tenistas, em partidas jogadas nas três quadras.
Em fotomontagem, a placa denominativa
no cercamento de tela da quadra nº 3.
O Diario do Interior, em 15.11.1929, destacava ser a primeira vez, no Estado, que em uma sociedade de tênis tão elevado numero de tenistas jogavam em um mesmo dia. Isso quando a população da cidade era de cerca de 17.000 habitantes.
Quando o Avenida Tênis Clube mudou para a Praça da República a sua sede, inaugurada em 21.6.1931, as denominações das quadras foram também transferidas, sendo assim mantidas as homenagens a Antonio Rodrigues de Azevedo e Lamartine Souza. No novo local, mais uma quadra foi denominada, a “Pelouse Dr. Leggerini”, em reconhecimento ao engenheiro João Baptista Leggerini, presidente do A.T.C. que enfrentou com sucesso a difícil tarefa da mudança da sede.
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Vinte e oito anos depois, quando o clube instalou sua nova sede, no local onde hoje se encontra, as placas denominativas foram excluídas, desrespeitando as homenagens antes prestadas. As denominações das quadras com os nomes de Azevedo, Lamartine e Leggerini foram indevidamente suprimidas.

Em minha gestão na presidência do clube (1969-70), orgulho-me da iniciativa de o A.T.C. conceder a Lamartine Souza o título de sócio benemérito. O título foi entregue ao antigo campeão, em sua residência, por uma comissão de dirigentes ateceanos.
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Fontes:
Acervo pessoal.
Arquivo Histórico Municipal de S. Maria: Diario do Interior - Edições 13.11.1929 e 15.11.1929.
A.T.C., órgão do clube, edição de 6.9.1934.
Livro nº 1 de atas do A.T.C. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A noite em que toquei na OSPA

Uma foto encontrada em meus arquivos lembrou-me de minha participação em um concerto da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – a OSPA.

   No período de quatro anos, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre-OSPA, sob a regência do maestro Pablo Komlós, realizou três concertos públicos, no antigo Auditório Araujo Vianna, tendo no programa a Abertura 1812, de Tchaikovsky. Esses concertos ocorreram em dezembro de 1951, em 24 de janeiro de1954 e em 13 de fevereiro de 1955. O auditório estava situado na área hoje ocupada pelo Palácio Farroupilha, sede da Assembleia Legislativa.
Antigo Auditório Araujo Vianna, junto à Praça da Matriz. Na área à direita
da concha acústica, foram instalados os canhões do CPOR/PA.
   Com projeto arquitetônico, projeto estrutural e execução pelo engenheiro italiano Armando Boni, radicado em Porto Alegre, o auditório foi inaugurado em 19.11.1927. Tinha um palco com concha acústica de concreto armado, à esquerda do Theatro São Pedro, e plateia com bancos de cimento que se estendia na aclividade natural do terreno, cercada por pérgulas, até a Rua Duque de Caxias. A platéia tinha capacidade para cerca de 1300 pessoas sentadas.
   O antigo Auditório Araujo Vianna esteve em atividade por 31 anos, sendo demolido em 1958, para dar lugar ao Palácio Farroupilha.
   O concerto de 13.2.1955
   O espetáculo musical foi noticiado pelo Correio do Povo, edição de 13.2.1955, em sua seção Notas de Arte, dando destaque para a Abertura 1812, para cuja execução a OSPA contou com o acréscimo de mais 20 músicos, da banda de música da Brigada Militar e de alunos do Curso de Artilharia do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de Porto Alegre-CPOR/PA.
Correio do Povo, Porto Alegre, edição de domingo, 13 de fevereiro de 1955.

   O programa era composto por: Giuseppe Verdi: La Forza del Destino (Ouverture); Tchaikovsky: Suíte Quebra Nozes; Franz von Supée: Cavalaria Ligeira; Oscar Lorenzo Fernandez: Batuque; e Tchaikovsky: Abertura Solene 1812.
   Abertura Solene 1812
   A peça musical de encerramento, a Abertura Solene 1812, de Pyotr Ilitch Tchaikovsky, foi o grande destaque do concerto
   A composição dessa obra orquestral foi encomendada a Tchaikovsky para a abertura da Exposição Universal de Artes, realizada em Moscou, em 1882, quando eram comemorados os 70 anos da derrota do grande exército de Napoleão, na invasão francesa à Rússia, em 1812.
Pyotr Ilitch Tchaikovsky
   A estrutura da obra se organiza na contraposição entre a inicial vitória francesa e a posterior reação russa. Contrapõe o tema de La Marseillaise, hino da Revolução Francesa, e fragmentos do folclore e temas religiosas russos. Finaliza pelo triunfo russo, representado por um diminueto do hino czarista Deus Salve o Czar, sinos e troar de canhões. Quando a peça é executada em ambientes fechados, o estrondear de canhões é produzido por tímbales.
   A abertura da Exposição Universal de Artes coincidiu com a consagração da nova Catedral de Cristo Salvador, cujos sinos participaram do concerto de estreia. A catedral fora erigida para comemorar a vitória russa sobre o exército napoleônico, em 1812.
   A Abertura Solene 1812 finalizou de forma emocionante o grande concerto da OSPA, naquele verão de 1955.

   Artilheiros do CPOR
   Para a execução da Abertura 1812, no concerto de 13 de fevereiro de 1955, houve a participação  do Curso de Artilharia do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de Porto Alegre – CPOR/PA. Eu era então aluno do 2º ano do Curso de Artilharia no CPOR/PA, cujo sistema era de Artilharia Montada, isto é, com condutores montados a cavalo e os canhões tracionados também por cavalos.
   Naquela tarde de domingo, nos deslocamos do CPOR/PA, Rua Correa Lima, no Morro Santa Teresa, até o Auditório Araujo Vianna, ao lado do Theatro São Pedro. Um percurso de cerca de 5 quilômetros, conduzindo uma bateria de três canhões Krupp 75 mm e seus armões, tracionados por robustos e indóceis cavalos da raça Percheron.
   Instalamos os canhões em uma área entre a concha acústica do auditório e o teatro, junto a uma balaustrada.
O maestro húngaro Pablo Komlós atuou em Budapeste,
Munique, Praga, Montevidéu e Porto Alegre onde, a partir 
de 1950, assumiu a organização e a regência da OSPA. 
Uma das mais dinâmicas personalidades musicais do RGS.
   No concerto, o maestro Pablo Komlós conduzia a grande orquestra acrescida pelas bandas militares. Um maestro auxiliar ‘regia’ os canhões, com a partitura à frente, comandando cada tiro, enquanto nós, atentos aos movimentos de sua batuta, dávamos os tiros. Apesar dessa atenção, um dos colegas detonou fora de tempo: o tiro saiu desafinado.
   O final do concerto foi vibrante. O grande público que lotava a plateia do Auditório Araujo Vianna, ao troar dos canhões, com surpresa, levantou-se entre emocionado e assustado. Muitos pareciam preocupados sobre o que seria atingido, já que os canhões estavam voltados para a parte mais central da cidade. Evidentemente, eram tiros de festim, somente pólvora, mas com estrondo igual ao do tiro real.
   Em O Obus, periódico do Curso de Artilharia, produzido pelos colegas Raul Machado e Bernardo Kamergorodski, o concerto foi noticiado como parte principal do programa de acolhimento a uma caravana turística de cariocas e paulistas:
O Obus, edição nº 2, ano letivo 1954-55, pág. 9.
   O período contínuo, citado na notícia, referia-se aos meses de janeiro, fevereiro e julho, quando não tínhamos aulas na Universidade e nossas atividades no CPOR eram realizadas de segunda a sexta-feira, em dois turnos.
   Assim como eu, meus colegas artilheiros Aluísio Saggin e Fernando Carlos Becker lembram-se muito bem de terem "tocado canhão" na OSPA, 60 anos atrás.

Para ouvir a Abertura Solene1812, de Tchaikovsky, acesse 
https://www.youtube.com/watch?v=-BbT0E990IQ

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Fontes:
Acervo pessoal.
Arquivo Histórico Municipal de S. Maria - Correio do Povo, Porto Alegre, edição de 13.2.1955.
Aluísio Bittencourt Saggin, Gravataí.
O Obus, ed. nº 2 do ano letivo de 1954-55 - acervo de Werner Bittelbrunn, Cachoeira do Sul.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Abertura_1812
http://www.ospa.org.br/?page_id=981
http://en.wikipedia.org/wiki/Cathedral_of_Christ_the_Saviour

domingo, 25 de janeiro de 2015

Rio Pardo – 1957

   Nossa turma de estudantes da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, quando cursava o 4º ano, fez uma viagem de estudos a Rio Pardo, em 1957, possivelmente em setembro ou outubro. A viagem foi promovida pelo Prof. João Baptista Pianca, da disciplina de Arquitetura no Brasil, para conhecer o patrimônio edificado, notadamente a Matriz N. S.ra do Rosário e a Capela de São Francisco, além da estatuaria sacra.
Matriz N. Senhora do Rosário
   Rio Pardo é um dos mais antigos e importantes municípios da história rio-grandense, que tem suas raízes no forte Jesus, Maria e José, construído em 1752, , a fortificação mais ocidental, na chamada Guerra Guaranítica (1753-1756). Durante as invasões espanholas, a partir de 1761, o forte nunca foi derrotado, o que valeu a Rio Pardo a antonomásia Tranqueira Invicta, no sentido de trincheira jamais vencida.
   A Matriz Nossa Senhora do Rosário tem, em sua fachada, a inscrição 1801, ano de sua consagração. A construção foi iniciada em 1791 e, em 1820, ainda faltavam-lhe acabamentos, segundo Saint Hilaire. No estilo Barroco Tardio, no qual "a graciosa leveza sucedeu a pomposa opulência", a igreja tem seu projeto atribuído ao engenheiro militar português Francisco João Roscio, autor também da igreja N. S.ra da Candelária, RJ (1775) e da Matriz de Cachoeira (1793). Roscio comandou a Comissão Demarcadora de Limites entre terras de Portugal e Espanha, no final do século XVIII.
Capela de São Francisco
   A Capela de São Francisco teve sua construção iniciada em 1802, após a doação do terreno à Ordem Terceira do Seráfico São Francisco da Penitência. A edificação estava ainda incompleta, quando iniciaram os ofícios em homenagem ao orago, em 1812, suposto ano de sua inauguração.
   As imagens esculpidas em cedro, policromadas, são do século XVIII e têm origem europeia. Algumas delas representam as cinco principais estações da Via-Sacra, em tamanho natural e perfeitas linhas anatômicas. Outras imagens foram reunidas no Museu de Arte Sacra, instalado na sacristia da Capela, inaugurado em 1975.

 
Interior da Capela de São Francisco
   Audazes rapazes
   Após a visita ao pequeno templo, houve um intervalo no programa. Os estudantes dirigiram-se à Praça Pedro Alexandrino de Borba, em frente à Capela de São Francisco, e alguns deles, inclusive eu, movidos por um impulso aventureiro e transgressor, subiram no reservatório cilíndrico elevado ali existente.

Localização e fotomontagem do grupo sobre o reservatório.
   Iniciamos a subida por escada de marinheiro, na parte interna da estrutura de concreto armado. Por uma passagem interna, chegamos à laje de cobertura, a cerca de 20 metros do solo, que nos parecia muito alta. A sensação de insegurança era acentuada pelo forte vento que então soprava e pela forma da laje, em calota esférica, desprovida de guarda-corpo.
 Na cobertura do reservatório elevado, na praça em frente à Capela de São Francisco, em Rio Pardo. Desde a esquerda: José Carlos Mafessoni, Francisco Pedro Bopp Simch, Hugolino Prá, Ney Mário Mercio Carneiro e José Antonio Brenner. Atrás, Jaime Villamarin Eslava e João Paulo Umpierre Pohlmann. Mais um colega realizou a ousada escalada – o fotógrafo –, mas nenhum de nós lembra-se quem foi. Vê-se ao fundo, 350 metros a sudoeste, as torres da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário.

   Quando descemos, esperava-nos um funcionário municipal, que nos repreendeu duramente por termos cometido tamanha travessura. Velhos tempos, belos dias: tínhamos todos entre 22 e 24 anos de idade.
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José Carlos Mafessoni, catarinense, voltou ao seu Estado. Vencedor da concorrência para o projeto do estádio do Ypiranga F. C. de Erechim. Vive em Balneário Camboriú

Francisco Pedro Bopp Simch. - Titular de Pedro Simch Arquitetura e Planejamento, em Porto Alegre, com 56 anos de atividade. Atua na elaboração de projetos de Arquitetura, assistência e fiscalização de obras, com ênfase em projetos residenciais, industriais e corporativos. Especializou-se em projetos para a indústria (siderúrgica, têxtil, metalúrgica, automotiva e de refrigeração).
Tem obras premiadas, notadamente o Teatro do SESI, Medalha de Ouro na IV Bienal de Arquitetura, 1997. Vencedor do X Prêmio de Arquitetura Corporativa, em 2013.

João Paulo Umpierre Pohlmann - Curso de Urbanismo/UFRGS.
Curso de Especialização em Transportes (Escola de Engenharia/UFRGS 1966)
Mestrado em Sensoriamento Remoto, aplicado ao Planejamento Urbano/UFRGS
Na Prefeitura de Porto Alegre, iniciou na Secr. Munic. de Águas e Saneamento (atual DMAE), depois na Secr. de Obras e Viação.
Após o Curso de Urbanismo, passou à Divisão de Urbanismo, mais tarde integrada à Secr. de Planejamento Municipl-SPM.
Supervisor de Operações da Secr. Munic. de Transportes, voltando depois à SPM.
Regente da Disc. de Tráfego no Curso de Urbanismo. No Curso de Arquitetura/UFRGS, foi professor das disciplinas de Planejamento Urbano I, de Morfologia Urbana e de Paisagismo.
Coordenou vários cursos de especialização para arquitetos e engenheiros de municípios do RS.
Em seu escritório profissional, elaborou projetos de Arquitetura, de Urbanismo, bem como de Paisagismo.

Hugolino Prá - Natural da localidade mais fria do país, Urubici, em São Joaquim/SC. Fixou-se em P. Alegre onde atuou como especialista em projetos estruturais de concreto armado, na Divisão de Obras da UFRGS, e como professor da disciplina Concreto Armado, na Faculdade de Arquitetura de UFRGS. Falecido.

Ney Mário Mercio Carneiro – Há mais de 50 anos, mantém escritório de Arquitetura em sua cidade natal, Bagé, onde também é produtor rural.

Jaime Villamarin Eslava – Estudante bolsista, natural da Colômbia. Formou-se em Arquitetura na nossa turma de 1958 e retornou ao seu país.
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Fontes
Acervo pessoal
José Ernesto Wunderlich, do Centro de Cultura de Rio Pardo.


domingo, 21 de dezembro de 2014

Uma foto histórica - autor: Bortolo Achutti

Em 30 de junho de 1985, o Centro de Tecnologia da UFSM completou 25 anos de fundação. Organizei, na época, uma exposição comemorativa, no saguão de Centro de Tecnologia, com fotos, documentos e instrumentos.
A coleta de documentos e, principalmente, de fotografias exigiu uma laboriosa busca em vários setores da Universidade.
Uma das fotos expostas tem grande valor histórico para o Centro de Tecnologia e para a UFSM.
Não sei em que dia foi tomada, mas eu a denominei

O “Dia do sim”
No ano de 1958, o Prof. José Mariano da Rocha Filho, então presidente da ASPES-Associação Santa-Mariense Pró-Ensino Superior, insistentemente solicitou a Evaldo Behr a doação de uma área em Camobi para a instalação do projeto urbanístico do Centro Politécnico de Santa Maria, origem do atual Centro de Tecnologia. Essa instituição comporia o setor tecnológico da universidade que o Prof. Mariano sonhava criar.
Evaldo Behr, além de ele próprio, representava seu sogro, Alfredo Tonetto, seu cunhado, Arlindo Tonetto, e seu irmão Edmar Behr, todos proprietários, em área ideal, de terras em Camobi, correspondentes hoje a boa parte do campus da UFSM.
Jan./fev.1959 - Evaldo Behr (E) mostra ao Dep. Tarso Dutra e ao Prof. Mariano da Rocha o início da área a ser doada à ASPES para o Centro Politécnico de Santa Maria, embrião do atual campus da UFSM. Foto: Bortolo Achutti

Passado algum tempo, Evaldo Behr convenceu os demais coproprietários a realizarem a doação. Como ele próprio me disse, em entrevista, estava com seu irmão empreendendo loteamentos e previa que o Centro Politécnico, na área a ser doada, resultaria em considerável valorização de suas terras, então distantes cerca de 900 metros da rodovia, porque se tornariam lindeiras da nova instituição de ensino superior.
O deputado federal Tarso Dutra, amigo e compadre do Prof. Mariano, já havia obtido dotações orçamentárias para iniciar as obras do Centro Politécnico, para o qual ainda não havia uma área e, obviamente, projeto.
Num dia de verão, entre janeiro e fevereiro de 1959, Mariano da Rocha e Tarso Dutra visitaram Evaldo Behr em sua casa de Camobi, junto a uma piscina comunitária. Sentados na varanda da casa, compartilhando o chimarrão, Behr comunicou aos visitantes que ele e os demais proprietários concordavam em fazer a doação, desde que a área fosse por ele demarcada.
Levantaram-se então, levando chaleira e cuia, e andaram cento e poucos metros até uma posição nas proximidades do atual pórtico de entrada do campus. Evaldo Behr descreveu então uma área, a partir daquele local, na direção sul, em forma de “L”, que o posterior levantamento topográfico revelou ter 36,68 hectares. O ramo maior corresponde hoje à Av. Roraima e seu entorno de edificações, em ambos os lados.

Intrigava-me o fato de a imagem daquele decisivo momento ter sido perpetuada em uma fotografia. Em entrevista a mim concedida pelo Prof. Mariano, em sua residência, quando eu buscava dados para o Histórico do Centro de Tecnologia, publicado em 1990, perguntei-lhe como isso ocorrera. Ele disse que, por telefone, fora informado por Behr da possibilidade da doação. Dirigiu-se então a Camobi, acompanhado de Tarso Dutra e Bortolo Achutti, fotógrafo lotado no Curso de Medicina, então vinculado à UFRGS.
30.7.1959 - Arquiteto Oscar Valdetaro, da Fomisa/RJ, expõe a Mariano da Rocha e a Evaldo Behr sua  primeira concepção de projeto. A avenida principal na divisa oeste, serviria também às terras dos doadores. Os dois blocos de edifícios visíveis tinham a orientação solar correta: Norte-sul. Foto possiv. de Bortolo Achutti

Muitas outras fotos da época, referentes às ações da ASPES e aos cursos de Medicina e de Farmácia, devem ser de autoria de Bortolo Achutti, sem terem o crédito registrado.
Quanto à foto do “Dia do sim” não há dúvida, foi tirada por Achutti porque isso foi declarado pelo Prof. José Mariano da Rocha Filho.
A foto registra o momento histórico em que foi concedida a doação da área destinada ao Centro Politécnico de Santa Maria, quase um ano antes de ser criada a UFSM. Com seus 36,68 hectares, foi o embrião dos cerca de 1.800 hectares do atual campus, no Bairro Camobi.
Foto da maquete do Centro Politécnico, datada de 10.9.1959. O prédio "g" é o atual Centro de Tecnologia e o prédio "h" destinava-se ao Instituto de Arquitetura e Urbanismo, área de conhecimento que somente em 1992 foi instalada na UFSM. 

Bortolo Achutti
Nascido em Santa Maria, RS, em 28 de outubro de 1898, Bortolo Achutti era filho de Antonio Mansur Achutti, imigrante libanês, e de Magdalena Miolo Borin, imigrante italiana.
Apaixonado pela arte e técnica fotográfica, desde muito jovem ele começou a fotografar, realizando todos os procedimentos em seu próprio laboratório, ainda na casa de seus pais.
Bortolo Achutti - Recorte de foto com a
família, em meados da década de 1950.
Durante muitos anos, dedicou-se à farmácia, exercendo suas habilidades como laboratorista. Prestou prova de suficiência em Porto Alegre, sendo licenciado como farmacêutico prático.
Bortolo Achutti foi admitido, em 11.2.1953, como laboratorista, na Faculdade de Farmácia de Santa Maria, depois lotado no Curso de Medicina de Santa Maria, ambos então vinculados à UFRGS.
Desde os primórdios da UFSM e nas ações anteriores à sua criação, exerceu atividade como fotógrafo, registrando os eventos mais importantes da instituição. Também preparou material didático como diapositivos e colaborou em trabalhos científicos com ilustrações (micrografias e fotografias).
Foi membro da Comissão de Publicidade e fotógrafo-chefe do Departamento de Fotografia.
  No 12º aniversário da UFSM (1972), Bortolo Achutti recebeu a Medalha do Mérito Universitário, outorgada a professores e técnicos por suas contribuições à Instituição.
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Fontes:
Acervo pessoal
ACHUTTI, Aloyzio. Histórias que meu pai contava
BRENNER, José Antonio. Cursos de Engenharia do Centro de Tecnologia – Histórico resumido, In: Revista do Centro de Tecnologia-UFSM, vol. 13, nº 2, 1990.
http://www.cechella.com.br/luiza.htm

sábado, 6 de dezembro de 2014

Ennio Brenner – campeão

No ano de 1933, fatos importantes ocorreram no Avenida Tênis Clube. Houve a eleição da primeira rainha, foi composto o hino, realizado um festival beneficente e lançado o A.T.C., o primeiro jornal do clube. Na metade do ano, meu pai, Ennio Brenner, tornou-se campeão de tênis do A.T.C..
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   Meu pai, Ennio Brenner, era um apaixonado pelo tênis.
   Nascido em Santa Maria, em 18.3.1907, ele se associou ao Avenida Tênis Clube no início de 1926, quando ingressou em seu primeiro emprego, no Banco Pelotense, agência de Santa Maria.
Ennio aos 18 anos, quando
se associou ao A.T.C.
   Ainda não havia completado 19 anos, quando foi eleito 1º tesoureiro, em 14.3.1926, na diretoria sob a presidência de João Appel Lenz. Participou da gestão seguinte do clube (1927-28) como 1º secretário.
   O A.T.C. tinha sua sede na Praça do Mercado, atual Saturnino de Brito, onde Ennio encontrou Maria Luiza Brenner, sócia ateceana desde 1922, com quem se casou em 1930. Não eram parentes, ela pertencia a outra família Brenner de Santa Maria. Os genearcas de ambas as famílias vieram, em diferentes épocas, do Principado de Birkenfeld/Hunsrück. Minhas pesquisas genealógicas revelaram, porém, que houve um ancestral comum, no século XVII.


Maria Luiza Brenner, a caminho da
quadra de tênis da Villa Etelvina ~1922 
   Como a maioria das jovens ateceanas, Maria Luiza jogava por diversão, mas disputava o campeonato permanente, na 3ª divisão feminina. Jogava também na quadra de tênis da Villa Etelvina, no Pinhal (hoje Itaara), propriedade de sua tia Etelvina Brenner Ramos.

   O A.T.C. competia com clubes de várias cidades do interior, em torneios amistosos. Em 20 de setembro de 1927, quando jogou contra o Tênis Clube Santa Cruz, considerado o mais forte do interior, o A.T.C. venceu 5 dos 6 jogos disputados. Destacaram-se o então campeão Lamartine Souza  e Ennio Brenner que venceu o norte-americano Joe Harris por 6x2 e 6x3. Notícia no Diario do Interior comentou:

   Em pouco tempo, Ennio Brenner tornou-se vice-campeão ao vencer João Appel Lenz, no campeonato interno do A.T.C., em 1928.
   O jornal A.T.C., na edição nº 12, de 12.6.1934, inaugura com Ennio Brenner a seção Nossa gente... assinada por “Nícia”, um pseudônimo.
   Eis dois trechos:

   Se a cronista do tênis tivesse esperado mais um mês, poderia ter escrito que Ennio tornara-se o campeão do Avenida Tênis Clube.
  
Ennio, na inauguração do Brasil
Tênis Clube, de S. Gabriel, 23.4.1933.
Ao fundo, a Igreja S. José
 Campeão
   Foi no dia 9 de julho de 1933, um domingo invernal de frio intenso e sob gélido vento minuano, que      Ennio Brenner e Lamartine Souza enfrentaram-se no campeonato permanente, em jogo decisivo para definir a primeira posição, no ranking do A.T.C.

   O cronista que assinou “Soeu”, no Diario do Interior, destacou o jogo “entre os ‘veteranos’ Lamartine e Ennio, que terminou com a vitória deste por 6-3, 4-6 e 6-4.” 
Lamartine tinha 36 anos e jogava tênis desde o tempo em que era estudante de Medicina, em 1918, quando a quadra do A.T.C. estava na Av. Rio Branco. Ennio tinha 26 anos e começara a jogar havia sete anos.
   A seguir, o cronista descreveu “o interesse que despertou esse encontro entre os torcedores que tiveram o ensejo de apreciá-lo.”
 
   E comentou:



 No jornal A.T.C. de 25.2.1934, Lamartine Souza, em sua coluna Do tennis ..., escreve sobre  o revers ou backhand isto é, o golpe de revés. Após várias considerações técnicas, ele conclui citando Ennio Brenner e assinando “Ely Hesse”, pseudônimo que reproduzia o som de suas iniciais: L. S.

   

   1935
Ennio Brenner participou de várias diretorias do A.T.C., mas sempre recusou a presidência, quando esse cargo lhe era proposto. Seu interesse era o esporte, como atleta e como diretor esportivo, cargo que exerceu com entusiasmo e grande êxito, em várias gestões.
   Obteve marcante sucesso na abertura da temporada de tênis de 1935, o que lhe valeu, registrado em ata,  “um voto de louvor ao esforçado diretor esportivo, Sr. Ennio Brenner, pela maneira com que organizou,” salientando o registro que “ constitui uma nota inédita nos anais do tênis santa-mariense, de alguns anos para cá, a abertura da temporada de 1935.” A parte mais importante do programa foi o jogo das duplas Ennio e Flávio Paz contra Lamartine Souza e João da Costa Ribeiro, “a partida magistral que empolgou a assistência”. Venceu a dupla Ennio Brenner (28) e seu sobrinho Flavio Paz (17), chamado o “menino de ouro do tênis”, por 8x6, 3x6 e 7x5.
   Ennio Brenner e Lamartine Souza formavam uma dupla imbatível, nos torneios do interior.
Abertura da temporada do ATC, na Praça da República, em 24.3.1935.
João da Costa Ribeiro, Ennio Brenner, Flavio Paz e Lamartine Souza.
   Ennio manteve-se campeão do Avenida Tênis Clube até 1940, quando mudou-se para Santa Cruz do Sul, para assumir a gerência do Banrisul naquela cidade. Associou-se então ao Tênis Clube Santa Cruz.
   Em 26.10.1944, retornou a Santa Maria e ao Avenida Tênis Clube, participando da diretoria, principalmente como diretor esportivo, cargo que continuou a exercer mesmo após deixar o esporte, devido a uma hérnia abdominal, surgida em partida decisiva do torneio contra o Cruzeiro Tênis Clube, em Livramento. As equipes estavam empatadas e a simples entre Ennio e Joaquim Pereira de Sousa, presidente do Cruzeiro, era a última do torneio. Apesar das dores, Ennio venceu o longo jogo em 40 games, dando a vitória ao A.T.C.
   Na terça-feira seguinte, 18.5.1948, o jornal A Razão reportou que a “partida final foi a mais bela do torneio, tendo Ennio Brenner disputado uma das melhores de sua bonita carreira esportiva.” Comentou, a seguir, seu jogo admirável e um terceiro set disputado ponto a ponto, que se tornou sensacional para os torcedores. E concluiu:
Estava o Avenida Tênis Clube mais uma vez vitorioso, graças ao admirável esforço de um dos seus mais dignos defensores, Ennio Brenner, a quem novamente cabe o mérito de uma grande e vitoriosa jornada. Não fosse a excepcional resistência e sua fibra de veterano, estaríamos amargando o pó da derrota.
   Benemérito
   Aos 61 anos, afastado das lides esportivas, Ennio foi homenageado pelo Avenida Tênis Clube com o título de sócio benemérito, por resolução do Conselho Deliberativo, em 8 de janeiro de 1969, proposta pelo presidente do clube, Dr. Oyama Albuquerque de Carvalho.
   Consta no diploma que o título foi conferido "como testemunho de grande admiração de seus companheiros de Clube e pelos inestimáveis serviços prestados à Sociedade."

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Fontes:
Acervo pessoal.
Arquivo Histórico Municipal - Hemeroteca: coleções dos jornais Diario do Interior e A Razão.
Livro de atas nº 1 do A.T.C.