sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A noite em que toquei na OSPA

Uma foto encontrada em meus arquivos lembrou-me de minha participação em um concerto da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – a OSPA.

   No período de quatro anos, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre-OSPA, tendo à frente o maestro Pablo Komlós, realizou três concertos públicos, no antigo Auditório Araujo Vianna, tendo no programa a Abertura 1812, de Tchaikovsky. Esses concertos ocorreram em dezembro de 1951, em 24 de janeiro de1954 e em 13 de fevereiro de 1955. O auditório estava situado na área hoje ocupada pelo Palácio Farroupilha, sede da Assembleia Legislativa.
Antigo Auditório Araujo Vianna, junto à Praça da Matriz. Na área à direita
da concha acústica, foram instalados os canhões do CPOR/PA.
   Com projeto arquitetônico, projeto estrutural e execução pelo engenheiro italiano Armando Boni, radicado em Porto Alegre, o auditório foi inaugurado em 19.11.1927. Tinha um palco com concha acústica de concreto armado, à esquerda do Theatro São Pedro, e plateia com bancos de cimento que se estendia na aclividade natural do terreno, cercada por pérgulas, até a Rua Duque de Caxias. A platéia tinha capacidade para cerca de 1300 pessoas sentadas.
   O antigo Auditório Araujo Vianna esteve em atividade por 31 anos, sendo demolido em 1958, para dar lugar ao Palácio Farroupilha.
   O concerto de 13.2.1955
   O espetáculo musical foi anunciado pelo Correio do Povo, em sua seção Notas de Arte, dando destaque para a Abertura 1812, para cuja execução a OSPA contou com o acréscimo de mais 20 músicos, da banda de música da Brigada Militar e do Curso de Artilharia do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de Porto Alegre-CPOR/PA.
Correio do Povo, Porto Alegre, edição de domingo, 13 de fevereiro de 1955.

   O programa era composto por: Giuseppe Verdi: La Forza del Destino (Ouverture)Tchaikovsky: Suíte Quebra Nozes; Franz von Supée: Cavalaria Ligeira; Oscar Lorenzo Fernandez: Batuque; e Tchaikovsky: Abertura Solene 1812.
   Abertura Solene 1812
   A peça musical de encerramento, a Abertura Solene 1812, de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, foi o grande destaque do concerto
   A composição dessa obra orquestral foi encomendada a Tchaikovsky para a abertura da Exposição Universal de Artes, realizada em Moscou, em 1882, quando eram comemorados os 70 anos da derrota do grande exército de Napoleão, na invasão francesa à Rússia, em 1812.
Pyotr Iliych Tchaikovsky
   A estrutura da obra se organiza na contraposição entre a inicial vitória francesa e a posterior reação russa. Contrapõe o tema de La Marseillaise, hino da Revolução Francesa, e fragmentos do folclore e temas religiosas russos. Finaliza pelo triunfo russo, representado por um diminueto do hino czarista Deus Salve o Czar, sinos e troar de canhões. Quando a peça é executada em ambientes fechados, o estrondear de canhões é representado por tímbales.
   A abertura da Exposição Universal de Artes coincidiu com a consagração da nova Catedral de Cristo Salvador, cujos sinos participaram do concerto de estreia. A catedral for erigida para comemorar a vitória russa sobre o exército napoleônico, em 1812.
   A Abertura Solene 1812 finalizou de forma emocionante o grande concerto da OSPA, naquele verão de 1954.

   Artilheiros do CPOR
   Para a execução da Abertura 1812, no concerto de 13 de fevereiro de 1955, houve a participação  do Curso de Artilharia do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de Porto Alegre – CPOR/PA. Em 1954, eu era aluno do Curso de Artilharia no CPOR/PA, cujo sistema era de Artilharia Montada.
   Naquela tarde de domingo, nos deslocamos, da Rua Correa Lima, no Morro Santa Teresa, até o Auditório Araujo Vianna, ao lado do Theatro São Pedro. Um percurso de cerca de 5 quilômetros, conduzindo uma bateria de três canhões Krupp 75 mm e seus armões, tracionados por robustos e indóceis cavalos da raça Percheron.
   Instalamos os canhões em uma área entre a concha acústica do auditório e o teatro, junto a uma balaustrada.
O maestro húngaro Pablo Komlós atuou em Budapeste,
Munique, Praga, Montevidéu e Porto Alegre onde, a partir 
de 1950, assumiu a organização e a regência da OSPA. 
Uma das mais dinâmicas personalidades musicais do RGS.
   No concerto, o maestro Pablo Komlós conduzia a grande orquestra acrescida pelas bandas militares. Um maestro auxiliar ‘regia’ os canhões, com a partitura à frente, comandando cada tiro, enquanto nós, atentos aos movimentos de sua batuta, acionávamos os gatilhos. Apesar dessa atenção, um tiro foi detonado fora de tempo
   O final do concerto foi vibrante. O grande público que lotava a plateia do Auditório Araujo Vianna, ao troar dos canhões, com surpresa, levantou-se entre emocionado e assustado. Muitos pareciam preocupados sobre o que seria atingido, já que os canhões estavam voltados para a parte mais central da cidade. Evidentemente, eram tiros de festim, somente pólvora, mas com estrondo igual ao do tiro real.
   Em O Obus, periódico do Curso de Artilharia, produzido pelos colegas Raul Machado e Bernardo Kamergorodski, o concerto foi noticiado como parte principal do programa de acolhimento a uma caravana turística de cariocas e paulistas:
O Obus, edição nº 2, ano letivo 1954-55, pág. 9.
   O período contínuo, citado na notícia, referia-se aos meses de janeiro, fevereiro e julho, quando não tínhamos aulas na Universidade e nossas atividades no CPOR eram realizadas de segunda a sexta-feira, em dois turnos.
   Assim como eu, meus colegas artilheiros Aluísio Saggin e Fernando Carlos Becker lembram-se muito bem de terem "tocado canhão" na OSPA, 60 anos atrás.

Para ouvir a Abertura Solene1812, de Tchaikovsky, acesse 
https://www.youtube.com/watch?v=-BbT0E990IQ

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Fontes:
Acervo pessoal.
Arquivo Histórico Municipal de S. Maria - Correio do Povo, Porto Alegre, edição de 13.2.1955.
Aluísio Bittencourt Saggin, Gravataí.
O Obus, ed. nº 2 do ano letivo de 1954-55 - acervo de Werner Bittelbrunn, Cachoeira do Sul.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Abertura_1812
http://www.ospa.org.br/?page_id=981
http://en.wikipedia.org/wiki/Cathedral_of_Christ_the_Saviour

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